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Trabalhar para quê? | Instituto de Educação Financeira

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Trabalhar para quê?

trabalhar para quêPor Jurandir Macedo

Recentemente o mundo corporativo foi surpreendido com a decisão do diretor de finanças do Google Patrick Pichette de antecipar sua aposentadoria. Mas por que um ato tão banal como um executivo se aposentar causou espanto ao ponto de se tornar matéria da prestigiosa revista Forbes e de diversos outros importantes meios de comunicação mundial? Três fatores podem explicar a surpresa.

1.      Pichette é um executivo muito bem sucedido e querido pelo mercado. O anúncio da sua aposentadoria chegou a derrubar em 2% as ações da poderosa Google. Posteriormente ele mesmo explicou que só sairia após alguns meses deixando um sucessor preparado no seu lugar. Mesmo assim as ações fecharam com queda de 0,64%.

2.      Patrick Pichette tem 52 anos.

3.      Ele comunicou sua decisão através de uma carta extremamente pessoal divulgada em sua conta no Google Plus.

Em sua carta ele explica estar inspirado por um convite feito pela esposa Tamar, após escalarem o monte Kilimanjaro na África. Nas palavras do executivo, “eu não poderia encontrar um bom argumento para dizer a Tamar que deveríamos esperar mais para pegar nossas mochilas e cair na estrada – celebrar nossos 25 anos juntos virando a página e desfrutando uma crise de meia idade perfeitamente cheia de felicidade e beleza, e deixar a porta aberta para a serendipidade de nossas próximas oportunidades de liderança, uma vez que nossa longa lista de viagens e aventuras está esgotada.”

:: Refletindo sobre o ato de Pichette

Eu tenho apenas um ano a mais de idade do que Pichette e, como ele, também adoro caminhar pelas montanhas. Tenho sonho de conhecer a Antártida e uma esposa que gosta de me acompanhar em aventuras pela natureza. Porém meus filhos são um pouco mais jovens e, claro, eu não devo ter nem uma pequena fração da enorme reserva de aposentadoria que o chefão da Google deve ter amealhado.

Minha desculpa estava pronta: trabalho porque preciso ganhar dinheiro para sustentar meus filhos e formar uma razoável reserva para aposentadoria. Mas será que isto é tudo?

Com o objetivo de escrever este artigo me pus a conversar com amigos sobre a decisão de aposentadoria precoce do diretor da Google. Como eu, a primeira desculpa de quase todos é de que não podem parar, que precisam continuar na luta pelo seu sustento e no preparo de uma aposentadoria futura financeiramente mais estável.

De forma geral a visão daqueles com quem conversei é de que os motivos da decisão de Patrick não devem ter sido exatamente aqueles apontados na sua carta. Alguns dizem que logo ele vai se cansar e voltar para o mercado ganhando e trabalhando ainda mais do que hoje, fato que fica implícito em sua carta. No ambiente universitário muitos professores passam anos contando os dias para se aposentar e depois de um início de aposentadoria glorioso logo vêm solicitar uma vaga de professor voluntário, apenas para ter seu trabalho de volta, mesmo sem ganhar um centavo. Muitos executivos que se aposentam logo relatam que sua agenda é mais cheia após aposentadoria do que no tempo de corporação.

Estas explicações e desculpas não me contentaram. Resolvi conversar com alguns conhecidos que já passaram da época clássica da aposentadoria, que têm grandes patrimônios e que, mesmo assim, continuam com agendas cheias e novos projetos que transcendem suas expectativas de vida. Cada um tem sua história e suas peculiaridades, mas de forma geral podem ser classificados em três grupos distintos.

Os sofredores

Para eles o trabalho é um peso a ser suportado. “Trabalho porque preciso e porque não posso parar,” dizem. As razões variam: os sucessores ainda não estão prontos, os filhos não têm interesse ou competência para assumir os negócios, precisam chegar ao fim de um projeto ou ainda não têm o suficiente para parar. Neste último caso, a justificativa costuma ser sonhos de consumo cada vez mais caros ou, pior, auto sabotagem.

Os empolgados ou desligados

São pessoas que adoram o que fazem, divertem-se com sua rotina e nem imaginam sua vida sem o trabalho. São desligados porque não ficam pensando em limitações, ainda se julgam na flor da idade e pensam que ainda têm muito a contribuir. A frase que ouvi de um empresário de 78 anos resume bem esse grupo: “eu sou imortal! Ou ao menos acredito nisso”. Muitos têm nesta fase uma atividade iniciada após terem se aposentado de sua atividade tradicional. Geralmente o lazer e o grupo de relacionamento está ligado à atividade profissional e construíram grandes amizades neste meio.

Os realistas

Adoram seu trabalho mas também têm muito a fazer fora dele. Sabem que o tempo não é tão elástico e reservam uma parte significativa dele para a família, para os amigos e para si. Alguns reservam a manhã para exercícios, leitura ou outra atividade prazerosa. Outros tiram férias cada vez mais longas e têm finais de semana cada vez mais elásticos. Parar totalmente não está em seus planos.

:: E você, onde está?

O trabalho visto como um peso a ser suportado só pode ser justificado pela necessidade. Muitos trabalham sem necessidade porque ele satisfaz e nos deixa mais felizes.

Definir felicidade é algo muito complicado. A filosofia e a religião vêm se debruçando sobre o tema há milênios sem chegar a uma conclusão definitiva. Gosto da definição de que felicidade é resultado de quatro sentimentos: prazer, pertencimento, significado e transcendência.

Prazer é o sentimento de contentamento físico. O que gera prazer para uns pode não gerar para outros. Mas certamente cada um identifica de imediato o que lhe gera prazer.

Pertencimento é a sensação de amar e ser amado. Mas, atenção: aqui além do amor carnal e familiar inclui-se o amor social, o status, a sensação de ser olhado com admiração mesmo por quem está distante de nós.

Significado é sentir que a nossa vida é útil para o outro, para a humanidade.

Finalmente, transcendência é sentir que nossa vida vai além da nossa existência física.

O trabalho é fonte de pertencimento e significado. Portanto, para muitos, contribui para a felicidade. Patrick Pichette, com sua aposentadoria precoce, abre mão da convivência dos seus pares na Google e troca o significado de estar mudando o mundo pelo pertencimento que emana da convivência familiar.

Aqui vale uma reflexão: quando se atua em uma grande empresa não é nada fácil ser um realista. As grandes empresas raramente abrem espaço para que seus funcionários mais graduados tenham um ritmo menos intenso, em que consigam trabalhar mas ter tempo também para cuidar da família, ter uma vida prazerosa e cultivar diferentes esferas de pertencimento.

A atitude de Pichette indica que as empresas precisam abrir espaço entre o 8 ou 80, entre sair ou permanecer na rotina das 10h a 12h de trabalho diário. Deixar a vida pessoal de lado para mergulhar no trabalho era aceitável para os baby boomers. Mas será que os membros da geração X, que cada vez mais ocupam os cargos do topo das empresas, também compartilham desse estilo de vida?

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2 comentários to “Trabalhar para quê?”

  1. Artigo bacana, professor, obrigado!

    Sobre o tema, acredito que a geração Y (da qual faço parte), e não a X, seja a geração que esteja começando a refletir mais a necessidade do equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Porém, me refiro à porcentagem reduzida da nossa população que tem maiores graus de instrução (segundo o IBGE, só cerca de 11% possui ensino superior completo) e que podem fazer estas escolhas.

    Pelo contato que possuímos com pessoas com menor grau de instrução ou em cargos mais próximos à linha de frente, as necessidades básicas ainda não são completamente satisfeitas de maneira que esta discussão sequer é uma opção a eles. Acredito que ainda demore algumas gerações até que a maioria da população brasileira possa começar a escolher que estilo de vida pretendem levar.

  2. Houve uma época em que precisei trabalhar em casa (home office), no começo foi gostoso, muito prático e o tempo rendia que era uma beleza, mas chega um momento em que sentimos falta do cafezinhho com o colega de trabalho, as conversas no meio do dia para dar uma quebrada no ritmo, e senti falta de voltar a empresa, mas logo que voltei pelo trânsito, muito tempo para chegar na empresa e voltar para casa, aí logo senti saudades de ficar em casa… é um dilema!!! Acho que se afastar completamente não dá, precisamos deste contato com as pessoas, manter o equilíbrio, acho que uma redução da carga horária seria uma ótima saída porque nos permitiria aproveitar no mesmo dia as duas coisas.
    Obrigado por compartilhar!
    Abraços,
    Alexandre.
    http://www.essenciayoga.com.br

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