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Síndrome de Tio Patinhas | Instituto de Educação Financeira

Artigos, Família e finanças, Finanças Pessoais

Síndrome de Tio Patinhas

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Por Jurandir Sell Macedo Jr. publicado na Revista RI

Normalmente quando se pensa em uma pessoa com problemas financeiros imagina-se alguém com dívidas e gastos excessivos. Porém, muitas pessoas têm o problema inverso: não conseguem gastar aquilo que têm.

A maioria das pessoas precisa trabalhar duro para conseguir honrar os compromissos no final do mês. Para elas pode até parecer piada, que alguém tenha mais do que precisa e não consiga gastar a sobra. Mas, na realidade, trata-se de uma dificuldade grave.

O problema atinge pessoas dos mais variados perfis, desde aquelas que já acumularam muito dinheiro para poder relaxar e aproveitar a vida até jovens em início de carreira. A seguir descrevo de forma resumida alguns casos que acompanhei quando atuava como planejador financeiro e que revisitei para este artigo.

A jovem executiva

Uma jovem executiva de um banco me confidenciou sua extrema propensão a economizar dinheiro. Segundo ela, o comportamento prejudicava a carreira e os relacionamentos profissionais e afetivos.

Ela se vestia de forma inadequada porque não considerava razoável pagar o que suas colegas pagavam pelas roupas que usavam. Também não aceitava os convites para sair com os colegas de trabalho porque não conseguia ficar tranquila vendo o consumo da mesa sabendo que no final teria que dividir com os colegas gastos que ela considerava abusivos.

A jovem morou no apartamento do tempo de universidade muito tempo depois de formada, alternando apenas as colegas que dividiam as despesas. Quando decidiu morar comprou um apartamento a vista, porém, muito mais simples do que ela poderia ter com o salário que ganha e com a poupança que tem.

A extrema avareza já causou o rompimento de alguns relacionamentos afetivos. Jovem, bonita e bem sucedida, ela tem certa facilidade em iniciar relacionamentos. Mas como tenta impor o comportamento financeiro, os namorados acabam se afastando.

A economia da executiva ainda hoje chega a quase 50% da renda, percentual que se apequena diante dos mais de 80% no começo da carreira. Seus sonhos estão ligados prioritariamente a conquistas profissionais almejadas. Ela diz que para se sentir segura precisa ter uma poupança elevada e como é bastante avessa ao risco seu patrimônio financeiro está investido em caderneta de poupança.

O ex-perdulário

Outro exemplo é de um homem que nasceu em uma família rica e recebeu, ainda muito jovem, uma herança razoável. Com ela, montou uma empresa de distribuição de produtos alimentícios resfriados. Ganhou muito dinheiro, mas gastava ainda mais. Em poucos anos levou o negócio à falência.

Sobraram as dívidas, a vergonha e um casamento falido. Depois de um período de desânimo e depressão, ele voltou ao trabalho com afinco redobrado. Agora não mais como dono de empresa, mas como vendedor autônomo.

Pela primeira vez na vida andava de ônibus e mandava arrumar as solas dos sapatos velhos. Pagou as dívidas e voltou a casar. Passados mais de 20 anos, ele se tornou novamente um homem rico e dono da própria empresa.

Mas o empresário se recusava a gastar aquilo que ganhava na nova empresa e continuou a viver com fosse um homem pobre. Este comportamento levou ao fim do segundo casamento, pois a ex-esposa que muito lutou ao lado dele acreditava que tinha chegado a hora de aproveitar os frutos de tanto esforço. Agora vem mantendo um complicado processo de separação pois não aceita uma divisão justa dos bens do casal.

Meu nome é trabalho

O terceiro exemplo é de um casal que começou a morar junto quando ambos tinham 16 anos. O começo da vida a dois foi uma aventura cheia de privações e intenso trabalho. Depois de anos de trabalho assalariado, conseguiram montar um pequeno armazém que se transformou em uma rede de supermercados.

A vida deles foi marcada por trabalho e dedicação aos três filhos: duas médicas e um publicitário. Mesmo tendo muito orgulho deles, os pais se ressentem do fato de que nenhum demonstrou inclinação para continuar os negócios da família. A falta de sucessor motivou a venda da empresa para uma grande rede.

Com muito dinheiro líquido, o casal foi encaminhado para sofisticados private bankers que falavam uma linguagem que eles não entendiam e adotavam comportamentos que deixam a ambos muito desconfortáveis.

Na comemoração de bodas de ouro do casal, por insistência dos filhos, toda a família foi para a Europa. Lá os conflitos entre o estilo de vida simples que o casal cultiva e a sofisticação da vida levada pelos filhos e genros ficou evidente.

Sob severa oposição dos filhos, abriram uma nova empresa. O casal simplesmente não suportou a ideia de seguir os conselhos dos parentes e dos assessores financeiros e viver gastando o dinheiro que possuíam. Infelizmente a nova empresa não foi bem e teve que ser fechada levando na esteira uma parte considerável do patrimônio acumulado. O patrimônio que restou ainda é elevado, principalmente diante do espartano padrão de consumo que levam. Porém, mais que a perda patrimonial, o que mais pesou foi a deterioração do relacionamento do casal com os filhos e o pesado sentimento de fracasso que agora acompanha o casal.

O que fazer

Estes são casos que beiram a patologia no relacionamento com o dinheiro, porém, alguns leitores podem se identificar em partes destes casos. Controlar nossas finanças nos coloca frequentemente entre os dois maiores erros financeiros possíveis em nossa vida:

1º Poupar muito e morrer cedo;

2º Poupar pouco e demorar para morrer.

Como não sabemos quanto tempo teremos pela frente o ideal é poupar um pouco para o futuro de tal forma que esta poupança não comprometa nossa qualidade de vida no presente. Mas como fazer isto com tantas demandas que a vida nos impõe?

A resposta não é simples, porém, tem um fato na minha vida que me ensinou muito. Um dia estava conversando com um professor da ULB na Bélgica e disse: “não tenho acumulado muitas coisas pois estou aqui só de passagem”, com toda sua sabedoria ele riu e perguntou: “aqui onde?”.

Assim talvez o segredo seja entender que estamos na vida só de passagem, e que, como sabem os viajantes experientes acumular muita bagagem pode tirar o prazer do caminho. E você é daqueles que sempre tem dificuldade em tomar as melhores garrafas de vinho da sua adega?

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3 comentários to “Síndrome de Tio Patinhas”

  1. É preciso economizar, mas sem deixar de viver os prazeres da vida. Ótimo texto!

  2. Olá, pessoal :) Artigo sensacional e obrigada pelas informações! Atuo na área de finanças pessoais e observo essa dificuldade entre vários dos formados em economia e particularmente analiso muito bem todas as minhas decisões se não há nenhum desses extremos. Sucesso e abraços.

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