Warning: preg_match() [function.preg-match]: Unknown modifier 't' in /home/edufinan/public_html/wp-content/plugins/mobile-website-builder-for-wordpress-by-dudamobile/dudamobile.php on line 603
Sem Ação | Instituto de Educação Financeira

Finanças Pessoais

Sem Ação

Stuhlberger: “Alguma coisa eu tenho na posição, mas olho um pouco este Brasil e digo… hum, não estou convencido”

“Tá quanto? Não, fico fora, obrigado.” Não se sabe exatamente a que ativo ele se referia, mas não resta dúvida de que a frase ao telefone, dita pelo gestor B a um de seus operadores durante esta entrevista, é, de certa forma, um resumo de sua disposição hoje com vários ativos brasileiros. Se o mundo lá fora está começando a ter nuvens menos carregadas e o dinheiro começa a fluir para o risco – o que significa ações e mercados emergentes -, talvez o Brasil até aproveite algo dos benefícios disso, mas menos do que poderia. A falta de investimento e o esgotamento do modelo de crescimento baseado em consumo começam a mostrar a fatura.

Stuhlberger enxerga desequilíbrios no que chama de “bocas de jacarés”. É uma referência ao desenho que se forma em um gráfico que confronta o avanço veloz do consumo com o crescimento tímido do investimento. Ou no que retrata a diferença entre a dívida líquida pública oficial e a real, em que soma o crédito concedido recentemente às estatais.

Um tanto pessimista, confessando uma ligeira ‘depressão pós-férias’, o diretor da Credit Suisse Hedging Griffo (CSHG) recebeu o Valor na sede da gestora. O reflexo do estado de espírito está em seu conceituado fundo Verde, que nunca teve tão poucas ações brasileiras – apenas 16% do patrimônio, contra uma média histórica de 33%. Este percentual alocado em ações continua, mas, agora, empresas locais dividem espaço com as estrangeiras. Em 2012, a bolsa foi o mercado que mais deu alegrias ao Verde, que rendeu 19,55%, enquanto o Ibovespa subiu 7,4% e o CDI, 8,4%. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Crise global

Estamos todos perdendo o medo de que o mundo vai acabar. Existe um baixo crescimento, mas aquele medo caótico, ou de quebra das finanças públicas e de bancos ou de que as populações e os governos [europeus] não iriam votar a austeridade e ia haver algum tipo de revolta, está passando por uma fase que terminou, ninguém mais fala nisso e esse medo não está nas cotações. Não acho que agora dá para dizer que os problemas do Brasil são culpa dos americanos, dos europeus ou dos russos, dos árabes, dos gregos. Os problemas nossos serão nossos. Os emergentes vão ter um ambiente melhor para crescer e competir.

Rotação para o risco

Estamos [o mundo] num processo de rotação de investimentos de ‘bonds para equity’ [bônus para ações], uma retomada do risco. Muita gente chama isso de grande rotação. Tanto para ações, quanto fluxo para mercados emergentes. É um dinheiro que estava meio empoçado muito tempo, com medo de que o mundo iria acabar. E houve a aprovação das agendas de austeridade na Europa e agora nos EUA essa discussão do abismo fiscal, e tudo mais ou menos está andando. É um ambiente benéfico, mas óbvio não dá para se garantir que é benéfico ‘forever’.

Alguém tem que ceder

Eu tenho um tema macro [sobre o Brasil] que eu chamo, lembrando aquele filme, de “Alguém tem que ceder”. Dado que as bocas de jacaré não fecharam, ou vai ter mais inflação ou o câmbio vai depreciar, ou você vai ter um problema nas finanças públicas. Eu tenho várias teses no fundo para me beneficiar disso. Só que isso custa caro. No sentido de que enquanto não acontece, você perde dinheiro. Outra questão é que todo mundo acha que a única consequência desse colapso de modelo é crescer pouco, certo? É isso: cresce pouco e so what? So what? Não tem nenhuma influência sobre o câmbio, sobre inflação, nenhum colapso das finanças públicas? Ninguém olha isso. Tenho esse meu mundo particular. Mas agora é um “play” mais difícil, porque ao mesmo tempo em que minha visão é pessimista, não está prestes a acontecer.

Modelo insustentável

Começo a olhar meio perplexo esses pontos todos, olhando o porquê do colapso do modelo. O governo age quando as coisas dão errado, porque em time que tá ganhando você não mexe. Eu olho essa boca de jacaré varejo versus investimentos, que é impressionante. Olhando outros países como Coreia, México, existe isso, mas não dessa forma, bem mais amena. Não é sustentável. Os investimentos têm que voltar.

Investimento

Olhando o lado do governo, como ele não quer que consumo caia, obviamente você tem que fazer crescer investimentos. Para isso, precisa de crédito do governo, do BNDES, investimento público, e isso eles estão fazendo. Precisa instaurar um clima de confiança entre o empresariado e o governo, e acho que isso não tá ocorrendo. Os empresários estão com medo de investir por várias questões. Mas o principal é o momento em que as empresas vivem, de colapso de modelo, porque como a tributação não cai e a massa de salário sobe, sem ganho de produtividade, as empresas têm uma compressão de margem. Tudo demora, tudo custa mais caro e os impostos e salários avançam na lucratividade.

Confiança

A retomada da confiança vem no sentido de achar que as condições que o país tem pra crescer são satisfatórias. Isso ainda é baixo. O trabalho que a Dilma está fazendo de desoneração é positivo. Só que esse clima de confiança demora um longo tempo pra vir. O efeito colateral da quebra do modelo, da gente crescer sem ter cuidado da base, leva tempo pra ir embora. É como qualquer negócio que está indo mal, você começa a consertar, mas os resultados demoram muito para aparecer. E a nossa perda de competitividade vis-à-vis os demais países emergentes é evidente e muito rápida, muito grande. Não é só culpa da Dilma, ela pegou uma herança negativa está tentando consertar algo que leva muito tempo e com um orçamento limitado.

Ceticismo

O maior problema é destravar o crescimento. Então, apesar do bom ambiente, apesar dos fluxos para emergentes e apesar de um certo otimismo global, eu estou ainda bem cético quanto ao Brasil. Aí você me pergunta o seguinte: bom, você não acha que vem fluxo pra cá, que vem investimento, que vai ter comprador para as ações? Vai. A única coisa que eu acho é que o ‘valuation’ das empresas da bolsa no Brasil não é barato.

Ações caras

Na bolsa, por que eu estou digamos assim, cético e bem underweight [abaixo da média] em Brasil, eu diria, para o meu padrão? Porque não acho o valuation das empresas boas brasileiras compatível com o risco. O Brasil ficou assim, com aqueles ‘value traps’ [armadilhas] do índice [Bovespa], aquelas companhias que ninguém mais quer saber, o setor elétrico ficou ruim; aço tem ‘overcapacity’ no mundo, estatais são mal geridas, petróleo é um bicho com um capex [investimento] enorme e de longo prazo que demora para entregar, as construtoras com problemas de demora na entrega e aumento de custo, os bancos com um certo ROE [retorno sobre patrimônio líquido] meio induzido pelo governo a ser menor. Então aquela agenda que eu falei no ano passado, ‘o que é ruim para o Ibovespa é bom para o Brasil’, meio que agora ninguém quer saber dessas ações e aí as outras, que são as ligadas ao consumo e alguns outros setores, já não estão baratos, para o Brasil de hoje, meio estagnado.

Preço e fundamento

Não estou excessivamente pessimista, apenas acho que tudo é ‘valuation’ ajustado ao risco. No começo de 2009 eu estava comprando tudo. As pessoas perguntavam: mas você está otimista? ‘Não, estou bem pessimista, mas também, por esse preço, eu compro.’ Hoje, a maioria dessas ações está quatro vezes o preço que eu paguei em 2009. Não estou dizendo as do índice, essas outras, educação, varejo, consumo.

“All time low”

Meu investimento em bolsa hoje está na média em 33%, só que o que antes estava no Brasil está espalhado. A gente está comprando muita coisa no exterior. Eu estou no “all time low” [nível mais baixo] de investimento em ações brasileiras, quer dizer hoje o [fundo] Verde está com cerca de 16% nessas ações, que é o nível mais baixo que eu me lembro na história, e estou com o nível mais alto de investimento em ações fora do Brasil, algo como 16% e 17%, pela primeira vez elas estão equilibradas, eu tenho metade no Brasil e metade fora.

NTN-Bs longas

O problema de você comprar uma NTN muito longa é a sustentabilidade fiscal de longo prazo. Nossa dívida/PIB é baixa, uns 35% do PIB. Mas o estímulo fiscal do governo às estatais criou um estoque de crédito de 9% do PIB. Obviamente, parte disso vai virar dívida. Com certeza a Caixa vai precisar de capitalização, um dia o BNDES vai precisar… Tem um certo investimento perdido, que ainda não virou dívida, mas vai virar. Ainda assim a dívida é baixa perto do resto do mundo. O problema quando analiso quadros desse tipo em situações não equilibradas é o que eu chamo de foto boa em filme ruim. Se você olhar a Espanha em 2007, o quadro fiscal é uma maravilha. Depois que a bolha estoura, a dívida cresce exponencialmente. Mas eu não estou dizendo que isso esteja perto de acontecer.

Zero de bolsa

Quando eu olho Brasil, digo ok, apesar do fluxo, esses preços não valem. Mas, no fundo, essas coisas não são simples. Os mercados um dia sempre voltam para o fundamento, mas as coisas ficam irracionais muito antes que seu dinheiro aguenta. Então, acho que se essa festa continuar sem que o fundamento do Brasil melhore, eu posso ir pra zero de bolsa [local].

Sem Blue Chip e Photoshop

Para dizer a verdade, ‘blue chip’ eu hoje não tenho nenhuma, não consigo comprar nada. Tenho investimentos relevantes em umas dez companhias. (…) Não quer dizer que eu não estou comprado em algumas coisas, vendido em outras. Alguma coisa tenho na posição. Mas olho um pouco esse Brasil e digo… “hum, não estou convencido”. Estou pagando para ver que o dano colateral vai vir mais rápido do que as melhorias. E o investidor me cobra todo dia. Ser gestor de recursos é pior que mulher posar para a “Playboy”. Minha cota está lá para todo mundo ver, nua e crua. Se eu errar, não tem photoshop.

Esperando pra ver

Eu tô naquela fase “I’m gonna wait and see”. Se subir mais um pouco, eu vou vender é tudo [em ações brasileiras]. Por enquanto está medianamente caro. Se tiver uma festa realmente grande… Eu vou esperar, porque não consigo me convencer que, apesar do mundo bom, a gente não vai ter problemas. Podemos até não ter problemas, mas o preço não justifica. Às vezes é mais fácil pegar uma tendência e dizer “I go with the crowd”. A decisão que estou tomando, que é muito angustiante, é dizer: vamos esperar uns meses para ver para onde vamos no câmbio, inflação, PIB e finanças públicas.

Impopular na escola

Meu comentário é estrutural, foi aí que eu fiz meus grandes acertos na vida. Mas não é fácil, porque você tem de ir contra a corrente. Mas acho que eu nasci assim. Falei para minha filha de 14 anos: eu era o cara mais impopular da escola. Você tem que ter esse DNA. Sempre fui na minha. Vamos ver. Até espero estar errado, para o bem do Brasil.

Do Jornal Valor Econômico
Você gostou deste artigo? Compartilhe:

Deixe seu recado