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Refinando o paladar de investidor | Instituto de Educação Financeira

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Refinando o paladar de investidor

French-Supermarket_fromagesSempre que vejo as opções de investimento oferecidas em um banco me lembro de um episódio que aconteceu na primeira vez em que fui a Paris. Cheguei cansado, em uma fria noite de chuva e resolvi ir a um supermercado próximo ao hotel para comprar o que seria meu jantar. Ainda hoje recordo do misto de deslumbramento e pavor que senti ao ver a infinidade de queijos diferentes que estavam expostos. Para alguém que, como eu, conhecia no máximo três variedades de queijos, aquela gôndola era um enorme desafio.

Tive a infeliz ideia de perguntar a uma senhora que fazia compras ao meu lado qual era o melhor queijo da loja. Ela me olhou estupefata, parecendo não acreditar no que eu havia dito. “Todos os queijos são bons, senhor. Depende apenas do seu gosto,” ela respondeu. Em seguida questionou quantos queijos eu queria levar. Surpreso, disse que um era mais que o suficiente. A senhora então observou o vinho que eu tinha em mãos e finalmente recomendou um camembert.

Acredito que grande parte dos investidores que estão começando veja o cardápio de fundos de um banco como um desafio tão grande quanto a longa gôndola de queijos foi para mim. Meu intuito inicial, de saber “qual o melhor queijo” também se compara à pergunta que mais recebo em aula e em palestras. Todo mundo quer saber: qual o melhor investimento?

O camembert do mundo dos investimentos é a caderneta de poupança. É um investimento simples, que agrada a quase todos. Entretanto quem se contenta com esta opção pode estar deixando de aproveitar verdadeiras delícias gastronômicas, quer dizer, financeiras. Há toda uma gama de produtos que o mercado financeiro oferece e cujo acesso depende apenas algum treino para o paladar.

Entre esses produtos estão os relativamente novos e extremamente interessantes Exchange Traded Funds – ETFs. O nome é estranho, mas o significado é simples. Os ETFs são fundos com cotas negociadas na bolsa. São como ações, mas em vez de representarem apenas uma empresa, representam uma carteira com diversas companhias. As ações que fazem parte dessa carteira são escolhidas tentando empatar com um determinado índice de mercado, por exemplo, o Ibovespa ou o IBRx. Por esse motivo eles também podem levar o nome de “fundos indexados” ou “fundos de gestão passiva”.

Se você comprar uma ação, irá se tornar sócio de uma empresa. Qualquer empresa é um negócio arriscado. Algumas podem ter problemas sem aviso prévio. Para diminuir esse risco de que algum problema em uma empresa afete de forma séria o patrimônio, recomenda-se a diversificação.

A vantagem da diversificação é bastante conhecida no mercado financeiro. Mas montar um portfólio de investimentos diversificado, com várias empresas, pode custar caro – especialmente para quem não tem muito dinheiro. Os ETFs surgem como essa alternativa simples e barata para diversificar os investimentos em ações. E ainda melhores que fundos tradicionais, já que a taxa de administração dos ETFs costuma ser muito baixa.

Por simplificar a diversificação a um custo baixo, os ETFs têm sido uma das classes de investimentos que mais cresce no mundo. Claro que, quando compramos um ETF, ainda estamos sujeitos às variações do mercado. Mas reduzimos significativamente os riscos de estarmos expostos aos problemas de uma empresa individual.

Apesar de se parecer em muitos pontos com uma ação, há duas diferenças importantes em um ETF:

1)     Tratamento tributário: um ETF é de um fundo de ações e não uma ação. Assim, não existe a possibilidade de isenção nas vendas inferiores a R$ 20 mil mensais.

2)     Dividendos e juros sobre o capital: pelo mesmo motivo, com os ETFs, não recebemos dividendos e juros sobre capital próprio pagos pelas empresas.

Este segundo ponto é o que gera mais dúvidas para os investidores: afinal, se não recebemos estas remunerações, isso não representa uma perda? Na realidade, não existe perda alguma. As ações que compõem a carteira do fundo continuam recebendo dividendos e juros sobre o capital próprio. Em vez de pagar estes valores aos cotistas, o fundo usa os ganhos para comprar mais ações. Ou seja, lentamente o fundo vai tendo uma participação cada vez maior nas companhias em que investe. Um acionista que receba todos os dividendos e gaste com o passar do tempo vai ter um patrimônio muito menor que um acionista que utilize seus dividendos e juros sobre capital próprio para investir.

Para ficar mais claro, vamos supor que você tivesse investidor R$ 300 no primeiro dia do Plano Real, R$ 100 em cada uma das seguintes ações: Itaú (ITUB4), Vale (VALE5) e Petrobrás (PETR4). Passados 19 anos, se tivesse recebido e reinvestido todos os dividendos, você teria R$ 19.509 em 1º de julho de 2013 – a soma de, respectivamente: R$ 9.892, R$ 6.754 e R$ 2.815. Porém, se tivesse preferido gastar os dividendos, o total seria de R$ 9.227 (R$5.071 da primeira ação, R$ 2.816 da segunda e R$ 1.340 da terceira).

E quanto mais uma ação paga de dividendos, maior é essa diferença. Fazendo a comparação com ações da Souza Cruz, que distribui todos os lucros, os R$ 100 de 19 anos atrás seriam hoje R$ 22.854, contando reinvestimento de dividendos. Mas sem esse reinvestimento, o total seria de apenas R$ 2.693.

Portanto, para quem quer acumular capital para a aposentadoria, gastar os dividendos não é muito interessante. Já para quem está aposentado e quer usufruir do patrimônio, os dividendos são interessantes. Ainda que se possa obter renda vendendo ações ou cotas dos fundos, sob o aspecto psicológico é muito melhor gastar os dividendos do que vender parte do patrimônio.

A senhora que me indicou o camembert acertou em cheio. Com sabor suave e delicado, ele dificilmente é recusado. Além disso, era provavelmente o queijo mais barato à venda. Mas felizmente eu lentamente fui aprendendo um pouco mais sobre o mundo dos queijos: uma verdadeira ciência para seus amantes! Conheci as diferenças entre as grandes categorias e a combinar alguns com vinhos e com outros alimentos. Também descobri como compor uma deliciosa tábua de queijos, com resultado diversificado e bem melhor.

Diversificar, conhecer mais e experimentar podem também fazer muito bem para seus investimentos. Perca o medo e descubra lentamente nomes que em princípio assustam, mas que podem contribuir muito para a construção do seu patrimônio.

Artigo publicado no Diário Comércio, Indústria e Serviços (DCI)

Jurandir Sell Macedo é consultor de Finanças Pessoais do Itaú Unibanco, professor da UFSC e fundador do IEF.

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