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Primeiro o patrimônio, depois o matrimônio | Instituto de Educação Financeira

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Primeiro o patrimônio, depois o matrimônio

Foi-se o tempo em que o casamento era uma união para a vida inteira regida pelo amor. O número crescente de divórcios desmente esta definição. E, de repente, aquele contrato assinado sob flashes e sorrisos, sem qualquer atenção às letras pequenas, sobrepõe-se a todos os outros firmados ao longo de uma vida com muito trabalho. A discussão dos detalhes fica para o fim da relação, ao contrário do que acontece no universo corporativo, no qual direitos e deveres são negociados minuciosamente antes da formalização de qualquer parceria. Adiar definições, porém, pode custar muito caro para os casais, mostra a reportagem de capa da edição de setembro da ValorInveste.

Quando o amor acaba, o patrimônio sofre. Há quem repasse bens a um familiar para não dividi-los com o ex-cônjuge. Alguns usam de chantagem para tentar obter uma pensão polpuda com o divórcio; outros reduzem o padrão de vida apenas para simular incapacidade de pagar. No extremo, um tenta desmoralizar o outro perante a Justiça. Pouco romântico e talvez novelesco, mas os advogados garantem: acontece.

“As pessoas se casam sem ter consciência do regime de bens”, diz a advogada Priscila da Fonseca, apelidada de “Priscila, a rainha do divórcio”

Por isso, quando há muito dinheiro em jogo, como no caso de proprietários de empresas ou herdeiros de fortunas, os especialistas têm uma sugestão que pode ferir os sentimentos dos mais românticos: é preciso pensar no patrimônio antes mesmo do amor. Não dá mais para esperar pelo momento do casamento para definir os papéis de cada um. Melhor mesmo é fazer logo um contrato e definir, desde o início do relacionamento, o regime de divisão de bens, diz a advogada Priscila Corrêa da Fonseca, professora da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. “No namoro de uma pessoa adulta hoje os dois dormem juntos, viajam no fim de semana, um fica na casa do outro… E aí? O que é namoro e o que é união estável? A linha divisória é muito tênue”, argumenta a especialista, que, de tão atuante em direito de família, foi apelidada como “Priscila, a rainha do divórcio”.

Se o namoro é considerado pela Justiça como união estável, a relação é enquadrada automaticamente no regime de bens mais comum dos casamentos formais, o de comunhão parcial de bens. Assim, até quem nunca disse ou ouviu um “sim” nem assinou qualquer papel pode se ver na obrigação de dividir uma empresa ou um imóvel. Fotografias, comprovantes de contas pagas ou de uma viagem, testemunhas de que um já tenha apresentado o outro como esposa ou marido servem como provas da união estável. Não é preciso morar na mesma casa e o prazo do relacionamento não é determinante, ao contrário do que muitos pensam. Segundo o Código Civil, basta a comprovação de uma “convivência pública, contínua, duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família”, por mais subjetivo que isso possa parecer.

Arriscado, não? Talvez por isso a “rainha do divórcio” tenha preferido as flores. Com 40 anos de profissão e mais de dez mil processos defendidos pelo escritório que comanda em São Paulo, ela nutre o afeto por sua filha e pelas 2 mil orquídeas que cultiva em seu apartamento em São Paulo e na casa de praia – mas nunca se casou.

No altar

Mesmo no cartório, diante das opções previstas em lei (veja quadro ao lado), os noivos raramente percebem a importância de definir regras para o patrimônio atual e futuro. “As pessoas se casam sem ter consciência do regime de bens”, diz Priscila. “Mas, no segundo casamento, todo mundo já entende”, acrescenta.

Alheios às minúcias, os casais caem em armadilhas que, muitas vezes, só se revelam no momento do divórcio. E elas são frequentes, conta Marcelo Santoro, advogado de família especializado em proteção patrimonial. Se os noivos compram um apartamento pouco antes do casamento, por exemplo, e só ele assina o título de aquisição, o imóvel pode ser considerado apenas dele, ainda que se casem em comunhão de bens e paguem juntos todas as parcelas. Se o casal opta pela comunhão parcial e compra um apartamento com os recursos da venda de outro imóvel que pertencia a ela antes do casamento, o novo lar deve ficar com ela em caso de divórcio. Mas, para evitar transtornos, é importante que isso conste no contrato, alerta o advogado.

Na comunhão parcial, as regras para investimentos não são triviais. Ainda que os bens particulares anteriores ao casamento sejam de cada um, seus frutos são comuns. O que acontece se um deles investir em ações antes da união? O papel é de quem o comprou, mas, se der origem a uma bonificação, o adicional pertence ao casal. E se ela tem um apartamento? O imóvel é dela, mas a renda obtida com o aluguel é dos dois. A empresa é da família dele? O lucro é do casal. “E se eu uso o lucro para fazer um aporte de capital, estou dando para ela parte da empresa familiar”, destaca Santoro.

São detalhes, sim. Mas um indicador mostra que os casais podem estar acordando para o assunto: no primeiro semestre, foram registrados 3.934 pactos antenupciais (regimes de bens mais elaborados, diferentes dos convencionais) no  Estado de São Paulo, 49% a mais do que em igual período de 2011. Como as brigas por dinheiro são comprovadamente motivo de divórcio (veja entrevista) e o número de uniões desfeitas cresce, é prudente ficar alerta. Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são de 2010, quando se alcançou a taxa de 1,8 divórcio por grupo de mil pessoas com 20 anos ou mais, a maior da série histórica. Houve um empurrão da emenda constitucional 66, que eliminou o prazo de dois anos entre a separação e o divórcio. Derrubada a necessidade de “purgatório”, muitos separados aproveitaram para antecipar a dissolução do vínculo matrimonial, o que inflou os resultados. Mais recentes, os dados de divórcios consensuais nos cartórios de São Paulo também mostram crescimento. Nos dois primeiros meses deste ano foram 2,8 mil divórcios, 11% a mais do que no mesmo período de 2011. De 2007 até o ano passado, o número quase triplicou.

A emenda que determinou o fim da separação judicial acabou também com a discussão da culpa nos tribunais, diz Rodrigo da Cunha, presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM). “Antes chegávamos a ficar cinco anos discutindo quem era o culpado e ainda era preciso pagar dois processos: a separação judicial e o divórcio”, afirma. Eventos como traições não têm mais qualquer peso para a Justiça nem determinam uma partilha de bens mais vantajosa para o cônjuge traído. “Adultério já foi crime, não é mais”, diz Priscila. A razão da separação pode até dar origem a uma ação de indenização por danos morais, mas o retorno, quando há, não é tentador, afirma. “Na minha experiência, quem entrou com uma ação desistiu.”

No tribunal

No momento do divórcio, ainda que bem definido o regime, a divisão dos bens não é matemática. Quando o patrimônio inclui uma empresa, a conta é ainda mais complexa e demorada – como no caso da rede de drogarias Ultrafarma. O fundador e presidente, Sidney Oliveira, que estampa seu rosto no logotipo da empresa, enfrenta há três anos um processo de divórcio de Áurea Lima, que se diz proprietária de 90% da rede.

Em 2009, Sidney publicou um anúncio nos jornais dizendo que, em virtude de problemas societários, deixaria a administração. Dias depois, anunciou sua volta ao comando. O advogado de Áurea, José Diogo Bastos, chegou a pedir à Justiça que Sidney fosse substituído por um administrador escolhido pelo juiz, o que não foi aceito. Recentemente, a disputa judicial voltou à tona diante de notícias sobre uma eventual fusão da Ultrafarma com a rede Pague Menos. O advogado de Áurea ameaçou entrar com uma representação para que ela tivesse acesso às negociações.

O processo de divórcio corre sob segredo de Justiça e, por isso, o advogado não pode comentar a disputa. Com 30 anos de profissão, Bastos conduz processos complexos no direito de família, nos quais há grandes patrimônios envolvidos. Nesses casos, diz, a maior dificuldade é definir o valor de companhias sem ações em bolsa. Quando não há consenso, o juiz nomeia um perito para avaliar a empresa. “A Justiça determina um prazo, mas há acidentes de percurso e a avaliação nunca demora menos de seis meses”, diz.

Há uma figura jurídica chamada “affecio societalis”, segundo a qual é preciso haver um vínculo na sociedade: se o casamento acaba, um não precisa continuar como sócio do outro. É comum que um ofereça uma compensação financeira para que o outro saia, mas a divisão exige a definição do valor da empresa. Enquanto isso, aquele que administra o patrimônio costuma ter de remunerar o parceiro. A participação até pode ser vendida a um terceiro, mas o ex tem direito de preferência. Se após a perícia ainda não houver consenso, o caminho é a partilha judicial: o juiz determina os valores a serem pagos. Se há imóveis, eles vão a leilão.

A briga pode se estender por anos ou até décadas. Bastos já atendeu a uma outra cliente que, de advogado em advogado, empenha um divórcio litigioso há 20 anos. Pesa neste caso o abandono do ex-marido, depois de ela ter bancado seu curso de medicina e assinado algumas procurações em que transferia bens ao nome dele.

O amor custa caro

Se na hora do casamento o amor cega, no momento do divórcio é o rancor que empurra a racionalidade para o segundo plano. Além de correr o risco de ter o patrimônio subavaliado em caso de litígio, os ex-casais empregam fortunas na própria briga judicial. Peritos, advogados e até detetives entram nas contas. É comum que de 6% a 10% do patrimônio amealhado pelo cliente na disputa fique com o advogado.

“O divórcio litigioso é uma maneira de as partes continuarem a relação e permanecerem unidas pelo ódio”, diz Cunha, do IBDFAM. É pelo efeito das emoções sobre a decisão da partilha, que deveria ser basicamente financeira, que ele decidiu estudar psicanálise. “O divórcio mistura a objetividade das regras jurídicas com a dor do amor. A pessoa pensa: preciso de R$ 1 mil, mas vou pedir R$ 1,5 mil para pagar pelo fato de ele não me querer mais”, diz.

O planejador financeiro Fabiano Calil conta que é comum homens chegarem ao seu consultório prontos para uma briga jurídica longa, desde que isso impeça as ex-mulheres de ficar com parte do patrimônio. Ele tenta dissuadir o cônjuge enfurecido, mostrando as vantagens da conciliação: o desgaste emocional com o litígio é enorme e deixa uma herança de ressentimentos, sobretudo para quem tem filhos. Quando há litígio, o casal pode desembolsar até R$ 50 mil com advogados, um valor que poderia ser economizado se a separação fosse consensual, observa. Ele recomenda que o homem seja generoso e abra mão até de parte do patrimônio que, por direito, seria dele. Se o casal tiver apenas um imóvel, por exemplo, Calil sugere que fique para a mulher. “O homem tem que lembrar que foi aquela mulher que ele amou e que seus filhos vão viver naquela casa, se ficarem com a mãe.”

Em geral, a resolução rápida do conflito abre espaço para que o homem siga sua vida. As estatísticas mostram que eles reconstroem rapidamente o patrimônio “perdido” na separação, afirma Calil. As mulheres, como geralmente ficam com os filhos e têm menos tempo para o trabalho, acabam tendo seu patrimônio reduzido e perdem poder de compra ao longo do tempo. Daí a importância de deixar as mães em uma boa situação, dizem os especialistas.

Entender e estabelecer regras desde o princípio pode poupar dissabores, ao contrário do que podem pensar os apaixonados. Muitos consideram constrangedor propor um regime diferente da comunhão de bens. “É chato pensar em divórcio antes de se casar, mas o melhor é discutir abertamente, pôr na gaveta e aí, sim, seguir em frente”, argumenta Samir Choaib, sócio do escritório Choaib, Paiva e Justo Advogados. Ele lembra que as novas gerações tendem a ter mais relacionamentos ao longo da vida, o que só reforça a necessidade de clareza sobre os papéis de cada um. “Além do matrimônio, tem que pensar no patrimônio”, defende.

Conhecer o lado nada romântico do casamento não significa encará-lo como uma instituição falida. No filme “O amor custa caro”, um advogado especialista em divórcio e uma caça-dotes profissional, representados por George Clooney e Catherine Zeta-Jones, se envolvem em uma disputa na qual vale até encomendar a morte do parceiro. A disputa ferrenha, entretanto, mesmo conhecidos todos os meandros judiciais, termina em casamento. Pelo menos na ficção, o amor é mais forte que o contrato.

No divórcio, entre a ruína e a rentabilidade

Tormento financeiro dos casais em fase de separação e tradicional fonte de renda para os advogados de família, o divórcio litigioso agora passa a ser alternativa de investimento. A empresa inglesa Novitas Loans lançou recentemente o fundo Novitas Divorce Litigation, que vai aplicar em créditos gerados por empréstimos concedidos pela própria Novitas a pessoas que desejam se divorciar.

Com taxa de administração de 1% ao ano, o fundo promete um retorno anual de 8% aos investidores. A carteira, aberta para captação em junho, já foi fechada, após ter amealhado a meta de 5 milhões de libras. Os créditos que estão na carteira são empréstimos ao redor de 50 mil libras com prazo médio de nove meses.

Segundo o ex-gestor de fortunas e conselheiro financeiro Jason Reeve, que fundou a Novitas Loans no início de 2010, o público vai desde a classe média até os milionários. Mesmo os mais ricos sofrem às vezes com a falta de liquidez: com o dinheiro concentrado nos negócios familiares e em propriedades, não conseguem dispor rapidamente de um grande volume de recursos para pagar os honorários dos advogados.

Em Londres, um processo de separação custa, em média, cerca de 30 mil libras para cada cônjuge.  Estima-se que o mercado de empréstimos para divórcios litigiosos movimente entre 50 milhões e 100 milhões de libras por ano no Reino Unido. E se trata de um nicho em expansão. Após quase uma década em declínio, o número de divórcios no Reino Unido subiu 4,5% em 2010, atingindo 132,2 mil, segundo levantamento mais recente do Departamento Nacional de Estatísticas britânico, publicado no fim do ano passado.

Segundo Reeve, a ideia de constituir o fundo surgiu a partir de conversas com os próprios advogados que atendiam pessoas em processo de divórcio. “Muitos me procuravam e diziam que teriam interesse em investir em um fundo desse tipo por meio de suas associações”, conta.

O fundo tem como principal risco a inadimplência, ou seja, as pessoas não honrarem os empréstimos que tomaram para pagar os custos do divórcio.  Reeve garante que a taxa de inadimplência dos empréstimos concedidos pela Novitas é nula, já que o crédito só é liberado para quem apresenta garantias. “Só emprestamos para quem tem patrimônio em seu nome ou no nome do casal, e não vamos nos comprometer com empréstimos inseguros. Isso seria suicídio comercial”, afirma.

A Novitas dá crédito a um público geralmente rejeitado pelos grandes bancos, que emprestam apenas a pessoas que podem sair do divórcio com um patrimônio de pelo menos 3 milhões de libras. A taxa de juros é um pouco mais elevada que a dos bancos, o que, em tese, garante o lucro da empresa e, é claro, o retorno de 8% ao ano prometido aos investidores.

Pensão pode amarrar ex-cônjuges, mesmo sem filhos

Além da partilha, o divórcio pode resultar em pensão. Os filhos sempre têm este direito. Mas o juiz também pode decidir que esposas ou maridos recebam o benefício, principalmente se um abandonou a carreira para cuidar dos filhos ou acompanhar o outro em suas oportunidades profissionais, como em uma viagem ao exterior. A pensão dos filhos termina com a maioridade ou o fim da faculdade. A do cônjuge também pode ser temporária, até que o beneficiário se recoloque no mercado de trabalho, por exemplo.

É consenso entre os advogados que a mulher, mesmo que venha ganhando espaço no mercado de trabalho, ainda é, em geral, a parte mais fraca no divórcio. Já existem ex-maridos que recebem pensão, mas são raros. Nos 30 anos de profissão de Rodrigo da Cunha, presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), foram somente três.

Apesar do nome técnico de “pensão de alimentos”, o cálculo do benefício considera diversos fatores. A Justiça pesa as possibilidades de quem vai pagar e as necessidades de quem vai receber. Para empregados, em geral, não passa de 30% da renda mensal, diz a advogada Priscila Corrêa da Fonseca. Para um profissional liberal com ganhos variáveis, vale o padrão de vida mantido pela família ao longo do casamento.

Uma variante usada de forma crescente, chamada de “alimentos compensatórios”, é uma espécie de indenização para que o cônjuge mantenha o padrão de vida a que estava acostumado. É o caso de Roseane Collor, que foi casada com o ex-presidente Fernando Collor em regime de separação de bens. A Justiça alagoana garantiu a ela uma pensão de R$ 15 mil, mais, a título de alimentos compensatórios, dois carros e dois apartamentos. Até o fim de agosto, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) ainda não havia julgado um recurso contra a decisão.

Os conflitos em torno da definição da pensão têm crescido com o advento do crédito fácil, diz Andréa Pachá, juíza da 1ª Vara de Família de Petrópolis (RJ). Como muitos constroem a vida em cima de financiamentos, uma pensão baseada apenas na renda pode não garantir a manutenção desse padrão. Ela acredita que deve começar a surgir jurisprudência nesse sentido. “Se o endividamento foi a forma que viabilizou o sustento do filho até ali, também não é razoável que ele seja privado de um padrão minimamente compatível com o que tinha.” Por outro lado, o aumento do emprego formal nos últimos 15 anos facilita a fixação da pensão, que pode ser descontada na folha de pagamento. O percentual pode chegar a 45% da renda, dependendo do número de filhos, diz.

A juíza deve publicar em novembro, pela editora Nova Fronteira, um livro com crônicas de divórcios ocorridos no tribunal, com alguma licença literária. Os conflitos por dinheiro marcam presença, como o da mulher que trabalhava, mas queria uma pensão própria, além da que seria recebida pela filha. “A senhora acha mesmo correto ele comprar uma Mercedes e não me pagar nada de pensão?”, questionou a mulher. Casamento não é emprego e não tem indenização por rescisão, com ou sem justa causa, respondeu a juíza. “Casar, sob o ponto de vista econômico, é o pior investimento que alguém pode fazer. Só perde para a separação”, resume Andréa.

Meu, seu, nosso

Quando a pobreza entra pela porta, o amor sai pela janela, diz o ditado. Isso não acontece se o planejamento financeiro estiver sobre a mesa, diriam os conselheiros financeiros. Pequenas dívidas escondidas do parceiro, diferenças nos hábitos do consumo, capacidade de poupança muito desigual, visões distintas sobre a utilidade do dinheiro — questões como estas podem minar o relacionamento ao longo dos anos e levar à separação.

Foi o caso de uma relações públicas que prefere não revelar o nome. Ela tem 38 anos e está divorciada há 12. Aos 22 anos, com uma filha recém-nascida e prestes a comprar um apartamento com o marido, um bancário, ela assinou uma procuração para que ele a representasse e cuidasse de toda a papelada da transação. “Era exaustivo mexer com burocracia e mamadeira”, lembra. A confiança no marido e o alívio momentâneo do fardo burocrático revelaram-se, contudo, uma armadilha de proporções desastrosas. Sem que ela soubesse, ele tornou-se, em nome dos dois, fiador de um terceiro em um empréstimo. Ela só descobriu quando recebeu um aviso de execução judicial: o tomador do empréstimo tinha dado o calote. “Tivemos que vender o apartamento e os móveis para limpar nosso nome. Passamos a dormir em um colchão no chão, e eu, a lavar roupa na mão”, conta. “Não foi por isso que nos separamos, mas esse tipo de atitude dele ajudou a desgastar nosso relacionamento.”

Segundo os especialistas ouvidos pela ValorInveste, o caso ilustra a maior dificuldade que os casais enfrentam quando o assunto é dinheiro: a falta de diálogo. Se um não sabe direito o que o outro faz, mais cedo ou mais tarde, quando um problema financeiro vier à tona, um dos cônjuges vai se sentir traído.

É o que o consultor financeiro Gustavo Cerbasi, autor do best-seller “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos”, chama de “infidelidade financeira”. Como sua prima-irmã, a infidelidade conjugal, ela abala a confiança mútua. “O problema não é diferença de renda entre os cônjuges ou hábitos de consumo diferentes, mas a falta de uma conversa franca sobre esses assuntos”, afirma Cerbasi, que atendeu mais de 750 famílias como consultor entre 2000 e 2009 e, com base nessa experiência, acaba de lançar o livro “Os Segredos dos Casais Inteligentes”.

As pequenas discussões do dia a dia corroeram o relacionamento da assistente administrativa Alessandra Barros, de 35 anos, e do metalúrgico Marcos Vieira, de 39. Os embates surgiram quando foram morar juntos, após sete anos de namoro. “Às vezes ela comprava sem necessidade. E eu perguntava o que ela ia fazer no salão de beleza toda semana”, conta Marcos. “Ele também fazia extravagâncias, comprava tênis caro”, rebate ela. Os conflitos terminaram em separação. Mas, há um mês, decidiram começar de novo. “Agora, vamos tentar colocar o diálogo em primeiro lugar”, promete Alessandra. Certos de que as brigas por dinheiro pesaram, eles começaram a nova etapa fazendo um curso de finanças para casais, da consultoria Omeltech. “Desde a fase do namoro é bacana começar a pensar que o dinheiro não é meu nem seu: é nosso. Os dois têm que ter foco nos mesmos sonhos e objetivos”, disse a palestrante Roberta Omeltech. O casal manteve contas separadas, mas passou a dividir um objetivo, o de comprar a casa própria.

Em muitos casos, os motivos da infidelidade financeira são até nobres, como poupar o parceiro de dissabores que parecem momentâneos. Por que dar uma notícia negativa – uma pequena dívida com o banco, uma escorregada nas compras no shopping, uma quantia emprestada a um familiar em aperto – e estragar uma temporada de felicidade conjugal? Enquanto poupa o parceiro, o cônjuge comenta os tropeços com colegas de trabalho, amigos, familiares… O problema é que o deslize momentâneo se transforma em permanente e chega aos ouvidos do outro — que descobre ter sido “o último a saber” da gravidade da situação. “O que no curto prazo é benéfico, uma mentirinha que mantém o clima bom, vai abalar a relação mais para frente”, afirma Cerbasi.

O buraco nas contas é, em geral, coberto pelo outro. As finanças dos parceiros voltam aos trilhos, mas sobram sentimentos negativos: a vergonha de quem tomou a dívida; o ressentimento de quem se sentiu enganado, pois só soube quando a situação já era insustentável. Esse ressentimento ganha proporção se frustra os planos de consumo – uma viagem, um carro ou uma casa na praia – do cônjuge que pôs a mão no bolso para tapar o rombo.

Na ausência de um plano comum, a tendência é que o parceiro com mais renda coloque seus desejos em primeiro lugar, diz o planejador financeiro Fabiano Calil, que há mais de 20 anos dá consultoria a casais. “É o caso daquela viagem ao exterior com que ela tanto sonhava, mas que ficou no esquecimento para que o marido pudesse comprar o carro do ano que quer exibir aos amigos.”

A bancária Tayssa Meirelles, de 30 anos, e o representante de vendas Marcelo Biasi, de 25, são um típico casal contemporâneo. Como os dois têm salários iguais, há um equilíbrio de forças. Eles toparam dividir igualmente parcelas elevadas para quitar um apartamento em seis anos. Ela cortou os exageros nos sapatos; ele, nos eletrônicos. Fizeram logo uma planilha e cuidaram para não passar dos limites nas despesas com o casamento. “Tem gente que gasta até para empalhar o buquê da noiva”, diz Tayssa. Tudo que eles não queriam era fazer como uma amiga que teve de vender dois carros para pagar a festa. Até os mais organizados, entretanto, são de carne e osso. “Às vezes eu tenho uns chiliques, mas jogo aberto com ele. Estou me educando”, afirma a noiva.

No reverso da moeda, quando as finanças são unidas desde cedo – quer dizer, os gastos e a poupança são divididos –, os cônjuges passam a ter padrões similares, o que significa tanto prosperar quanto ultrapassar períodos difíceis juntos. Finanças unidas não equivalem a conta corrente conjunta, ressalta Cerbasi. União é um conceito mais amplo, que inclui compartilhar o planejamento financeiro e os planos de gastos, poupança e investimento. Tendo estabelecido uma relação transparente, é até saudável que cada cônjuge tenha seu pequeno orçamento pessoal, preservando uma independência que não comprometa o planejamento conjunto, afirma Cerbasi.

Calil vai pela mesma linha. O diálogo é essencial, mas não significa perda da privacidade. É importante que cada um tenha autonomia para realizar alguns desejos. “Muitas pessoas têm medo de perder a independência se contarem tudo ao parceiro, mas dá para planejar em comum e ao mesmo tempo manter algum espaço para a individualidade”, afirma.

Embora pareça simples, a adoção de um planejamento conjunto e com diálogo requer disciplina e força de vontade, reconhece. Com a rotina pesada de trabalho e, em muitos casos, a criação dos filhos, as pessoas têm pouco tempo para conversar sobre o próprio relacionamento. E, quando têm tempo, preferem curtir o casamento e não falar de dinheiro, lembra Cerbasi.

Quando há diálogo e transparência, porém, existem recompensas. Casados há um ano, Adriana Brasil, 29 anos, e Erison Honda, 30, compartilham planos e ambições desde o namoro, na faculdade. Eles buscaram carreiras no serviço público e começaram a trabalhar no mesmo período. “Prestamos concurso para vagas com salário parecido, sabíamos quanto cada um ganhava e, na hora dos planos, o dinheiro não era tabu”, afirma ela.

Juntos, acumularam recursos para dar entrada em um apartamento na planta e esperaram ficar pronto para se casar. Nesse esforço conjunto, Adriana deixou sua estratégia de investir em bolsa para aderir ao conservadorismo do namorado, que aplicava em certificados de depósito bancário (CDBs), por considerar a aplicação mais compatível com o objetivo.

A lógica do casal é simples: dividir contas em comum – condomínio, prestação do apartamento, supermercado – e poupar em conjunto para um objetivo preestabelecido, que hoje é quitar o imóvel. Depois, cada um é livre para gastar como quiser o próprio dinheiro. “A poupança e os gastos em comum não precisam ser do mesmo valor, mas o pensamento é o mesmo, de ir construindo coisas juntos”, diz Adriana.

Cada um tem sua necessidade de gastos e há meses com despesas maiores, mas o compromisso da poupança é mantido. Se aparece algum problema, o diálogo é o caminho. “Um diz que não pode contribuir com tudo, e tudo bem, não é algo muito rígido”, conta Adriana.  “Funciona porque temos objetivos e perfis parecidos. Se um fosse extremamente consumista, não daria certo.”

A organização financeira não foi tão fácil para o publicitário Thiago Teixeira, 26 anos, e a administradora Débora Soares, 22. Com casamento marcado para este mês, eles decidiram pagar juntos a festa. Na hora da parcela, ela não conseguiu arcar com sua parte. “Gasto muito com roupas e sapatos. Se minha conta estava positiva, eu gastava”, diz. Resultado: Thiago, que organizou o orçamento em planilhas, confiscou o cartão de crédito da noiva e passou a lhe dar uma mesada. Ela, por incrível que pareça, se sentiu confortável com a situação. “Aprendi com ele. Agora eu penso se quero ou se preciso.”

Quando os “DNAs financeiros” são muito diferentes, é importante que exista um esforço mútuo de entendimento, diz Calil. Hábitos formados na infância e na adolescência podem gerar diferenças aparentemente inconciliáveis. Mas descobrir que na origem do consu-

mismo do parceiro está um momento de privações, por exemplo, é algo que muda o relacionamento, explica. “Quando um ouve a história de vida do outro, como era a relação com o dinheiro, passa a existir maior compreensão.” Autora do livro “Até que o dinheiro nos separe”, a terapeuta Cleide Bartholi não encontrou uma fórmula mágica para os casais lidarem com as finanças, mas indícios sobre formatos que parecem gerar menos conflitos. Um deles é o da equidade: cada um contribui de acordo com sua renda. Quem ganha mais paga mais. Nesse formato, além de uma conta conjunta, usada para pagar as despesas comuns, cada um pode ter a sua, para satisfazer necessidades próprias.

Eles e elas

A ascensão profissional das mulheres tem criado novos dilemas para os casais. Segundo os planejadores financeiros, são poucos os homens preparados para uma situação em especial: quando a mulher tem renda muito superior à do marido. Calil diz que é crescente o número de mulheres que buscam assessoria quando percebem que o fato de terem mais dinheiro está prejudicando o relacionamento. Elas percebem que o parceiro se sente desconfortável e tem sua autoestima diminuída por não exercer o papel de provedor. Muitas vezes, o marido fica com a sensação de que a relação deixou de ser entre homem e mulher e passou a ser a de uma mãe zelosa e seu filho querido. “Isso é muito ruim e, pelos casos relatados, acaba afetando até a vida sexual do casal”, conta.

Para contornar o problema, Calil tem uma dica simples. A mulher pode ficar responsável pelas despesas em casa, geralmente maiores, como prestação do imóvel, condomínio, escola das crianças. Fora de casa, em eventos sociais – jantares, teatro, cinema etc. –, quem abre a carteira é o marido. “Elas dizem que os resultados são ótimos e que os maridos recuperam a autoestima”, afirma.

A redução da discrepância entre os salários dos parceiros aumenta a probabilidade de divórcio, segundo uma pesquisa realizada em 2005 por Maurício Canêdo Pinheiro, professor da Fundação Getulio Vargas. Ele cruzou as estatísticas de registro civil do país com variáveis econômicas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Pedindo licença para olhar o casamento como algo puramente econômico, Canêdo sugere que as pessoas se casam por acreditar que a felicidade dos dois juntos é maior do que se estivessem sozinhos. E isso ocorre, em parte, pela divisão de tarefas. “Enquanto um estuda ou faz as tarefas domésticas, o outro pode trabalhar”, diz. A soma de salários também viabiliza o que a renda individual talvez não permitisse, como a compra de um imóvel ou de um carro.

O aumento da renda da mulher em termos absolutos, mostrou a pesquisa, tende a diminuir a probabilidade de divórcios, pelo ganho de poder de realização. Já quando a renda da mulher aumenta mais rapidamente do que a do homem, como vem ocorrendo, o divórcio se torna mais provável, diz Canêdo. “A ideia é muito pouco romântica”, assume. “Se o homem e a mulher estão contribuindo com a mesma coisa para o casamento, ele perde um pouco do sentido”, diz. A conclusão, nada animadora, é que o casamento em que somente um dos dois faz tarefas domésticas tende a ser um pouco mais estável. Talvez seja a hora de, em vez de deixar ele ou ela sozinho na cozinha, mudar de mentalidade. (Colaborou Sérgio Tauhata)

Os compulsivos também amam

Roupas com etiqueta no armário, faturas escondidas, conta conjunta que encolhe misteriosamente. Você pode dividir a casa com um comprador compulsivo. Autora do livro “Até que o dinheiro nos separe”, a terapeuta Cleide Bartholi defende em novembro sua tese de doutorado com o título “Um minuto para comprar e uma vida para pagar”. Ela pesquisou por cinco anos e fez longas entrevistas com oito casais em que um dos dois — quatro homens e quatro mulheres — é diagnosticado como comprador compulsivo. As conversas ocorreram depois de eles terem passado por tratamento no Hospital das Clínicas, em São Paulo.

O compulsivo, segundo Cleide, faz compras para preencher vazios emocionais. “Percebi que muitos têm pais com dificuldade de se relacionar, que usam de violência verbal e física, inclusive com os filhos, quando o tema central é o dinheiro”, adianta. A análise ainda está em andamento. “Às vezes eles até se dão muito bem em outras áreas da vida, mas quando entram no tema financeiro ocorrem brigas, discórdias e disputas.” Boa parte dos pesquisados tem no histórico da família, de origem ou atual, uma falência, perda de padrão de vida ou privação séria.

Em geral, as mulheres exageram nos sapatos, roupas e bolsas; os homens, em carros, eletrônicos e viagens. Os dados preliminares indicam no caso deles, com frequência, uma intenção de agradar às mulheres, ainda que a situação financeira não permita. “Quase todos os homens pesquisados falam muito da vontade de dar o melhor para a esposa, às vezes porque viram que seus pais não foram muito sensíveis com suas mães”, conta.

O transtorno pode aparecer na adolescência, quando começa a liberdade financeira, mas também se manifestar mais tarde, aos 30 anos. Nem sempre é fácil para a esposa ou marido identificar o problema, porque os compulsivos com frequência escondem as dívidas. “Em média, demora quase sete anos para o outro descobrir e, quando isso acontece, a vida já está um caos. Quem ganha um salário mínimo já deve R$ 9 mil ou R$ 10 mil e nem sabe onde gastou.” O comportamento não tem cura, mas pode ser controlado. Aí vem a importância da terapia, diz.

O transtorno pode se tornar uma ameaça à vida conjugal. Ou se evita o assunto financeiro ou ele é motivo de conversas agressivas. Os estudos ainda são recentes, mas, com base em sua pesquisa, Cleide diz que é preciso eliminar cartões de crédito e cheques. Nesse caso, até uma relação hierárquica diferente, em que um controla mais a vida financeira do outro, é aceitável, desde que se faça da forma correta. “A qualidade do vínculo e da comunicação é central. Uma coisa é construir isso com seu parceiro. Outra é tomar uma atitude impulsiva e quebrar o cartão dele”, diz.

Eterno enquanto durar

O educador financeiro Erasmo Vieira dá dicas aos casais para que o dinheiro não seja um tabu:

1. Tudo na mesa: Inclua o assunto dinheiro nas conversas da família e jamais esconda do outro sua situação financeira

2. Sonhos compartilhados: Estabeleça metas financeiras logo no início do relacionamento e trace planos em conjunto, como a compra de um imóvel, a organização de uma viagem ou a faculdade dos filhos

3. Quanto antes melhor: Converse sobre finanças desde o começo do namoro, compartilhe visões e, nessa fase, jamais assuma dívidas pelo parceiro ou com ele

4. Junto e misturado: Ainda que opte por não ter uma conta corrente comum, é importante o casal ter um orçamento conjunto, que inclua de gastos com roupas a realizações de sonhos

5. Planilhar e planilhar: Anotar os gastos deve virar rotina. Na internet há softwares de gerenciamento gratuitos que facilitam o controle. Parar pelo menos duas vezes por semana para olhar a conta corrente e pagar as contas antes do vencimento também são bons hábitos

6. O combinado não sai caro: Se a renda dos dois é diferente, o ideal é que cada um pague contas em proporção ao que ganha, mas o modelo deve ser escolhido conjuntamente

Duplo vínculo no casamento

Estudo mostra que casais que poupam mais são menos propensos ao divórcio, diz o professor Jeffrey Dew, da Universidade Estadual de Utah

Quanto mais dívidas por consumo excessivo os casais carregam, maiores são as chances de que a união termine em divórcio. Essa é uma das conclusões do especialista Jeffrey Dew, professor do Departamento de Família, Consumo e Desenvolvimento Humano da Universidade Estadual de Utah, nos Estados Unidos.

Mestre e doutor em estudos da família e demografia e autor de mais de quarenta artigos acadêmicos sobre a relação entre as finanças pessoais e o casamento,  ele afirma que casais que brigam por causa de dinheiro várias vezes por semana são 37% mais propensos ao divórcio se comparados aos que discutem pelo mesmo motivo menos de uma vez por mês.

Casado e pai de quatro filhos, Dew decidiu dedicar-se ao estudo do papel do dinheiro nas relações familiares quando, no início de seu curso de pós-graduação, deixou um emprego em que tinha “um bom salário” e benefícios para abraçar a carreira acadêmica. “Queria entender como isso acabou influenciando meu casamento”, conta o professor.

Entre os trabalhos acadêmicos mais recentes publicados por Dew está o artigo “Beyond employment and income: The association between young adults’ finances and marriage” (“Além do emprego e da renda: A associação entre as finanças de jovens adultos e o casamento”, em tradução livre), publicado no “Journal of Family and Economic Issues”.

Confira a entrevista concedida pelo especialista à ValorInveste.

Quais são os problemas financeiros mais comuns enfrentados pelos casais nos Estados Unidos?

Muitos casais não poupam o suficiente para a aposentadoria e alguns têm muitas dívidas de consumo, principalmente no cartão de crédito. Além disso, muitos falham na tarefa de gerenciar as finanças pessoais de uma maneira que os ajude a progredir.

Em que medida problemas financeiros contribuem para os casais se divorciarem? Qual a associação entre conflitos provocados pela má condução das finanças pessoais e o divórcio?

Em meus estudos, encontrei três aspectos financeiros associados com o divórcio: poupança, dívidas e conflitos financeiros. O acúmulo de dívida e os conflitos financeiros são associados com maiores probabilidades de divórcio. Já a poupança é associada com menor probabilidade de divórcio. Conflito financeiro é o mais forte motivo para o divórcio quando estes três fatores são comparados.

É possível mensurar o quanto as discussões sobre finanças minam a relação conjugal?

Sim, é possível. Um dos meus estudos, por exemplo, indica que casais que brigam por causa de dinheiro várias vezes por semana são 37% mais propensos ao divórcio ao longo do tempo do que casais que brigam pelo mesmo motivo menos de uma vez por mês. Quanto menos os cônjuges brigam por causa de dinheiro, mais estável será o casamento.

De que maneira o acúmulo de dívidas afeta os casais?

O acúmulo de dívidas, particularmente as geradas pelo consumo, é associado principalmente com dois resultados. Em primeiro lugar, quanto mais dívida um casal tem, mais ansiosos e deprimidos os cônjuges se sentem. Naturalmente, isso é difícil para o casamento. Em segundo lugar, quanto mais dívidas os casais têm, mais eles brigam. Mesmo quando nos concentramos em conflitos que não estão relacionados com as finanças, casais com mais dívidas brigam com mais frequência.

A capacidade conjunta de poupar e investir aumenta a possibilidade de manutenção do casamento ao longo do tempo?

Sim. Um dos meus estudos sugere que os casais que pouparam mais eram menos propensos ao divórcio ao longo do tempo. Isso porque a poupança reforça a felicidade no casamento e aumenta a percepção dos custos do divórcio.

Diferenças grandes de renda entre os cônjuges provocam, em geral, problemas no relacionamento?

Não estudei isso, mas outros pesquisadores nos Estados Unidos estudaram essa questão. E talvez seja surpreendente notar que casais com diferença de renda muito grande entre os cônjuges têm menos problemas. Casais em que os dois têm salários iguais ou quase iguais são mais propensos ao divórcio.

É possível estabelecer alguma correlação entre recessões econômicas e aumento de divórcios?

Ninguém tem formalmente estudado isso até agora. Mas estatísticas públicas da depressão econômica da década de 30 nos Estados Unidos e da recessão mais recente sugerem que a taxa de divórcio é estável ou diminuiu ligeiramente. Dificuldades econômicas geralmente parecem tornar o divórcio menos acessível ou menos viável para os casais.

Da Revista Valor Investe

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