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Pecados que custam caro | Instituto de Educação Financeira

Finanças Pessoais, Notícias

Pecados que custam caro

A advogada trabalhista Cristina Aparecida de Oliveira passou a vida toda investindo apenas na caderneta de poupança, sem curiosidade de conhecer outros tipos de aplicação. Ela diz que não busca informações financeiras por pura falta de tempo e acredita que é o gerente do banco no qual tem conta quem tem a obrigação de ter amplo conhecimento na área de investimentos. “Cada um tem que ser bom no que oferece”, argumenta.

O dinheiro na poupança foi se acumulando até que, há cerca de três anos, chegou a R$ 100 mil. Inconformado, o filho de Cristina passou a insistir para que diversificasse suas aplicações e ela decidiu, a seu modo, se mexer. Deu-se de presente um carro novo e, com os R$ 52 mil restantes, pediu ao gerente que encontrasse uma aplicação “boa” para ela, alinhada ao seu perfil. Foi assim que, há três meses, a advogada aplicou R$ 18 mil em um plano de previdência privada e o restante em um fundo com remuneração diária, cujo nome ela não se lembra bem.

Na história de Cristina, fica fácil enxergar atitudes típicas de muitos brasileiros. Na economia em que o juro real de 2% tornou-se um objetivo público do governo, porém, os investidores terão que gastar tempo, buscar informações e fazer contas. “Não dá para ter um fundo DI com taxa de administração de 2% ou 3%, porque vai comer todo o ganho real”, ressalta o planejador financeiro Fabiano Calil.

Basta ver o próprio exemplo da advogada. Mesmo em um mundo de juros ainda mais altos, se há três anos ela tivesse, de um lado, adotado uma posição menos conservadora – aplicando os R$ 100 mil acumulados em um fundo DI com taxa de 1% ao ano, por exemplo – e, de outro, controlado seu impulso consumista, teria hoje R$ 25,4 mil a mais, recursos suficientes para comprar ao menos um carro dos mais simples.

Que atire a primeira pedra, no entanto, quem nunca cometeu alguns dos pecados perpetrados por Cristina na administração dos próprios recursos. Embora até o início da década de 70 a corrente econômica tradicional defendesse a existência de um investidor que toma decisões racionais em mercados eficientes, a teoria comportamental jogou luz sobre essa questão e fez um alerta: em matéria de finanças, somos todos irracionais, levando conosco vícios e virtudes de nossa cultura e convívio familiar e social.

“Todos nós caímos em alguma cilada, porque tendemos a ficar presos a padrões históricos, a achar que sabemos mais”, diz o planejador financeiro pessoal Tobias Maag. “Temos uma tendência ancestral a poupar, o que não gostamos é de nos mexer”, complementa Vera Rita de Mello Ferreira, doutora em psciologia econômica e professora da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi).

Mas os novos tempos exigem uma postura diferente. Nos mais de 15 anos de juros altos, atitudes como a falta de disciplina ou a ingenuidade acarretavam danos muito menores. Mesmo ganhando menos do que poderia, o aplicador geralmente conseguia obter um saldo bem razoável. A alta remuneração paga por um título público – ao redor de 45% em março de 1999, 26,5% em março de 2003 ou mesmo 13,75% em setembro de 2008 – embotava os pecados do investidor.

Os sinais indicam que, pela primeira vez, contamos com uma perspectiva concreta de juros em níveis estruturalmente mais baixos. Mas será que a ficha caiu para os brasileiros? Aparentemente, não. Pesquisa recente da gestora Franklin Templeton revelou que 48% dos entrevistados ainda esperam ganhos de 5% a 15% ao ano – e isso sem correr riscos. O cenário seguro no qual havia como ponto de referência uma rentabilidade de 1% ao mês parece ter ficado como uma espécie de âncora no imaginário do aplicador. Esses “viúvos da Selic (juro básico)”, nas palavras da psicóloga Vera Rita, vão ter que se dar conta de que as mudanças podem ser duradouras e exigirão um investidor bem mais atento.

De acordo com cálculos feitos pelo economistas Marcelo d’Agosto, do blog O consultor Financeiro do portal Valor, quem investiu em uma aplicação atrelada à Selic em 2002 conseguiu dobrar seu investimento em pouco menos de nove anos, já descontada a inflação do período. Hoje, escolhendo um título de longo prazo indexado à inflação, o mesmo aplicador vai demorar quase 16 anos para conseguir dobrar seu patrimônio. E, se considerada a meta alardeada pelo governo atual, de encerrar o mandato com taxa real de 2% ao ano, esse objetivo fica ainda mais distante – o investidor levará 35 anos para conseguir o mesmo que, no início dos anos 2000, exigia apenas nove anos de esforço.

Diante do cenário desafiador, que no fim de maio combinava juro baixo, real desvalorizado e uma bolsa que voltou a oscilar como nos padrões vistos nos piores momentos do ano passado – quando os Estados Unidos perderam a nota máxima de avaliação de crédito -, a antiga sensação de leve culpa que uma atitude impensada causava ao investidor pode se transformar em pecado capital: perdas para o bolso.

Daqui pra frente, confirmado o cenário de juros mais baixos, será mais duro poupar para acumular patrimônio, embora mais necessário do que nunca. O desafio é tremendo e exige uma mudança radical de comportamento do investidor. O primeiro vício a combater é o pai de todos: a preguiça. Veja abaixo os demais pecados a evitar.

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Indisciplina

Adotar métodos simples é uma atitude que pode render para sempre.

A disciplina é o melhor remédio para driblar muitos dos nossos vícios financeiros, mas a justificativa para evitá-la é poderosa e fartamente aceita nos tempos atuais: a falta de tempo. Como pensar em ter um processo de investimento bem delineado se nos sobram poucas horas além do trabalho e é preciso conciliar família, amigos, lazer, esporte etc? Sem atenção às finanças, no entanto, suas aplicações podem começar a perder a corrida contra a inflação.

Não se trata, aqui, de conseguir tempo suficiente para obter dinheiro comprando e vendendo ações pela internet, por exemplo. Isto até exigiria mais providências, como leituras periódicas e preparo adequado. O que a maioria esmagadora das pessoas precisa para conseguir acumular patrimônio é apenas lançar mão de processos pouco sofisticados.

Há alguns anos, a advogada Fabiana Blasiis tentava guardar um pouco de dinheiro para a aposentadoria, mas não conseguia cumprir a meta de poupar mensalmente uma determinada quantia. “Muitas vezes, ficava insegura de aplicar muito dinheiro e, no fim do mês, precisar pagar alguma conta”, afirma. Até que, em 2006, o novo emprego trouxe a oportunidade de disciplinar as suas finanças por meio de um mecanismo bastante simples e ao alcance de qualquer um: o débito automático. No fundo previdenciário oferecido pela empresa, seus aportes eram debitados já na folha de pagamento, o que fez com que, na prática, ela deixasse de contar com aquela parcela do salário.

Diante de um novo trabalho em 2011, Fabiana precisou transformar seu PGBL empresarial em um plano individual e perdeu o conforto da poupança forçada. Que dizer, quase perdeu. Lição aprendida, ao conversar com a seguradora sobre como fazer as contribuições, ela obtou novamente pelo débito em conta. “Foi o jeito que achei para não correr o risco de colocar menos na previdência do que realmente posso nem de gastar com outras coisas”, diz.

Outro que estabeleceu um método para tentar fazer render seu dinheiro é o empreendedor P.S., de 33 anos. Antes de estrear no mercado de ações, há três anos, definiu que só compraria empresas “blue chips” (grandes e bastante negociadas) quando estes papéis perdessem valor sem explicação aparente. Estabeleceu ainda um objetivo de retorno, equivalente a quatro vezes mais que o ganha da renda fixa. “Se o fundo de renda fixa pagava 0,7% ao mês, a bolsa tinha de dar 3% líquidos de corretagem e imposto”, conta.

Meta alcançada, ação vendida. Ele admite que, assim, deixou de ganhar dinheiro, porque acabava saindo do papel antes de atingir o topo. “Mas quem sabe quando isso vai acontecer?”, questiona, emendando a importância de não se apegar ao processo se ele se mostrar falho.

Entre métodos mais ou menos simples, é consenso entre os especialistas que os primeiros passos nessa área podem ser dados aos poucos, sem muita complicação. A primeira coisa a fazer, diz Paulo Bittencourt, diretor-técnico da Apogeo Investimentos, é tomar nota de coisas básicas, como o volume de recursos que você costuma gastar no curtíssimo prazo, a cotação do dólar, a inflação esperada para 12 meses e o valor atual do lugar onde mora. “Não precisa de uma planilha, anote tudo em um caderninho mesmo”, comenta.

Segundo ele, não custa nada esticar a conversa com o zelador para descobrir por quanto foi vendido o último apartamento. Isto lhe dará referência da valorização dos imóveis vizinhos, ajudará a acompanhar seu patrimônio e servirá em uma eventual negociação de venda que não estava nos planos.

O planejador financeiro Álvaro Dias, sócio da A,R&D Finanças Pessoais, afirma que atende muitos clientes prestes a se aposentar. Melhor tarde do que nunca? Sim, responde ele, mas não é o ideal.

É claro que, quanto antes o investidor tiver esse tipo de preocupação, melhor. “Mas outra coisa ruim é achar que não dá mais tempo”, diz Jurandir Macedo, consultor de finanças pessoais e professor da Universidade Federal de Santa Catarina.

Segundo Macedo, o caso clássico é o do sujeito que aos 20 anos pensou que a aposentadoria era algo para acontecer dali a muito tempo, aos 30 formou uma família e acabou comprando uma casa maior do que precisava e, aos 40 ou 45 anos, percebe que precisa poupar parte muito grande do patrimônio e desiste. “Não é bem assim. Ele vai ter de poupar mais e trabalhar mais também, talvez além dos 65 anos. Qualquer coisa é melhor do que a inércia”, avalia.

Para os especialistas, a indisciplina financeira do brasileiro é herdeira direta do longo período inflacionário do país, quando qualquer planejamento de prazo um pouco mais longo perdia sentido diante do poder corrosivo da alta de preços. Com a estabilidade monetária ganhamos o bônus – e também o ônus – de ter de pensar no longo prazo.

(…)

Confira os outros pecados do investidor na reportagem completa.

Da revista ValorInveste.
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