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Os dois lados do crédito | Instituto de Educação Financeira

Artigos, Finanças Pessoais

Os dois lados do crédito

Por Jurandir Sell Macedo Jr.

Na região mais fria do Brasil, nos contrafortes da Serra Geral, em Santa Catarina, onde o planalto se precipita rumo ao mar, há uma pequena localidade colonizada pelos miseráveis colonos derrotados na Guerra do Contestado, de um lado, e pelos não menos miseráveis colonos alemães, de outro. Foi em um naco deste solo pobre, que só a custa de muita luta entregava o sustento de uma família, que eu nasci.

Saí de lá ainda criança, mas deixei para trás minhas raízes e muitos amigos. Naquele lugar me acostumei a uma miséria que muitos supunham só existir no Nordeste brasileiro. Lembro-me da dor e da vergonha que sentia ao ver conterrâneos passando fome e frio no cortante inverno serrano. Sentimentos que só deram lugar à esperança e ao orgulho de ser brasileiro quando finalmente observei aquelas mesmas pessoas melhorando de vida.

A fome foi a primeira mazela vencida. Com a barriga cheia, aqueles brasileiros – como tantos outros dos mais longínquos rincões – tiveram pela primeira vez a possibilidade de comprar roupas novas. Começavam assim a conhecer a sociedade de consumo e a vestir-se a partir do resultado do seu trabalho, não mais da caridade alheia.

Hoje, aos poucos, eles conquistam cada vez mais. Suas casas são lentamente preenchidas por móveis e eletrodomésticos e muitos têm até um carro popular na garagem. São bens que melhoram muito suas vidas e que estão sendo comprados em várias prestações.

O crédito tem sido um dos motores da inclusão de tantos brasileiros na sociedade de consumo. E esta inclusão transformou o nosso mercado interno, gerando o ciclo virtuoso de desenvolvimento e de crescimento econômico. Com o consumo em alta, as empresas puderam voltar a investir. Para tais investimentos elas têm encontrado o apoio do sólido sistema financeiro nacional.

O crédito vem ajudando muitas conquistas, mas é inegável que o endividamento tem gerado também grandes dificuldades para as pessoas. Famílias cedem com o peso de dívidas que se acumulam feito bolas de neve. Quando vemos a aflição dos brasileiros endividados, podemos apontar para os malefícios do crédito fácil e buscar nos bancos e nos juros os culpados pela situação financeira de tantas pessoas. Na verdade, trata-se de uma resposta simples para um problema complexo.

O endividamento excessivo trouxe a ressaca da inadimplência e, com ela, a pergunta: quem ganha com esta situação? A inadimplência representa perda de dinheiro e de clientes para os bancos. Os inadimplentes são, em maior parte, pessoas honestas que gostariam de pagar o que devem e que perdem o crédito e a tranquilidade financeira.

Diante destes problemas, será que o crédito é realmente o mal a ser combatido? Basta observar nossa história econômica recente para perceber que o verdadeiro problema não é o crédito em si, mas a inexperiência no seu uso.

A ausência de conhecimento financeiro, de forma ampla, e de vivência com o crédito, mais especificamente, é resultado dos longos anos em que convivemos com inflação descontrolada. Na época em que o crédito era praticamente inexistente, o endividamento também não era problema.

Com a criação do Plano Real, aos poucos o crédito começou a voltar. O financiamento de veículos cresceu vertiginosamente e os financiamentos imobiliários tornaram-se rotineiros. Os bancos aumentaram o limite do cheque especial e passaram a oferecê-lo a um maior número de clientes. O cartão de crédito começou a frequentar nossas carteiras e, nas viagens internacionais, deixamos de ser figuras exóticas que pagavam despesas com dinheiro vivo.

Ter um cartão de crédito com todas as facilidades e um limite de cheque especial para nos socorrer em emergências foi muito bom. Porém, na busca de crescimento de mercado, também cresceram as ofertas de limites excessivos, vários produtos diferentes, pouco aconselháveis para pessoas sem conhecimento e experiência para o uso do crédito. Assim, muitos começaram a comprar sem se preocupar com a fatura do cartão e a incorporar o limite do cheque especial como complemento do salário.

A expansão foi mais rápida que o aprendizado necessário para lidar de forma positiva com a oportunidade e a consequência foi amarga. O cheque especial e o rotativo do cartão de crédito não contam com nenhuma garantia de pagamento, portanto os juros são altos. A criação do crédito consignado, ocorrida em 2003, parecia ser a tábua de salvação para os endividados. Afinal, com o salário dos empregados como garantia, esse crédito tinha juros baixos e prazos maiores. Só que as pessoas endividadas passaram a usar o consignado e continuaram se endividando no cheque especial e no cartão de crédito.

Passados 18 anos desde o início da ampliação do acesso ao crédito, esta é uma boa foto a situação em que nos encontramos. Ainda assim, sempre que alguém critica o crédito e recomenda que ele seja evitado a qualquer custo, lembro-me das mulheres da minha terra, com feridas nas mãos depois de lavar roupas na água gelada. Será que elas devem suportar mais um inverno poupando dinheiro para comprar a lavadora no ano seguinte ou têm o direito de comprar uma máquina em 12 vezes?

Sim, o crédito pode realizar sonhos. E para que ele próprio não se torne um pesadelo, o caminho passa necessariamente pela educação financeira. Em 2004, de forma pioneira, o Itaú lançou o Uso Consciente do Crédito e logo foi seguido por outros bancos. Em 2006 a iniciativa foi ampliada e surgiu o programa de Uso Consciente do Dinheiro,  com o entendimento de que oferecer educação financeira é parte fundamental da estratégia de negócios do banco.

Clientes sem conhecimento financeiro têm risco de escolhas de crédito pouco adequadas, o que, aliado aos juros elevados e à grande oferta, favorece o endividamento excessivo. Clientes superendividados acabam não pagando o banco, que perde o dinheiro e o cliente. Clientes sem educação financeira podem até dar muito lucro no curto prazo, mas certamente a relação de ganha-perde não é sustentável ao longo dos anos. Relações que geram ganhos unilaterais costumam durar pouco, somente ganhos mútuos possibilitam a manutenção de relações de longo prazo, fundamentais para líderes de mercado.

Mais do que um programa, o Itaú incorporou a educação financeira como uma das suas estratégias de perfomance, de sustentabilidade ou, como destaca a visão do banco, de liderança em performance sustentável e satisfação de clientes.  O que demonstra o quanto o banco confia que clientes que recebem conhecimento financeiro podem fazer escolhas conscientes tanto para investir seu dinheiro quanto para tomar créditos que melhorem suas vidas.

Confira o Relatório Anual de Sustentabilidade
Do Relatório Anual de Sustentabilidade

Jurandir Sell Macedo é consultor de Finanças Pessoais do Itaú Unibanco, professor da UFSC e fundador do IEF.

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