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O milho e as morangas | Instituto de Educação Financeira

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O milho e as morangas

Por Jurandir Sell Macedo
8248c798e098dae54eb15247fa2c2209Antes de correr riscos, imagine o impacto que o pior cenário pode causar na sua vida

No início da década de 1980 meu irmão mais novo e eu tínhamos uma criação de ovelhas de corte na serra catarinense. Plantávamos uma lavoura de pastagens para suportar o duro inverno da região. No verão, plantávamos milho, que nos dava uma rentabilidade muito baixa.

Nossas atividades eram seguras, mas pouco rentáveis. Então ficamos sabendo que alguns agricultores da região estavam plantando a variedade de abóbora híbrida chamada Tetsukabuto ou Kabutia. Esta abóbora de nome complicado é aquela arredondada, muito utilizada para fazer camarão na moranga. Como era menor e mais saborosa, alcançava elevados preços no mercado.

Em uma viagem para a fazenda, discutíamos sobre a vantagem de naquele ano substituir a plantação de milho pela de moranga. Entretanto meu irmão alertava para o elevado risco da cultura não irrigada do vegetal, mostrando o quanto seríamos dependentes de um regime de chuvas bastante raro na região. Naquele momento ficamos espantados ao ver um pneu nos ultrapassando à elevada velocidade. Em seguida sentimos um baque, ouvimos um barulho alto e entendemos que a roda tinha se desprendido do nosso velho fusca.

Naquele tempo, não tínhamos telefones celulares e ficamos várias horas à espera de algum socorro, discutindo o que fazer como nossa lavoura. Desanimados com o velho carro e com a situação financeira, resolvemos arriscar e plantar toda a lavoura de morangas.

O clima ajudou e a cada dia víamos nossa lavoura mais carregada de belas morangas, que pareciam crescer sem parar. Começamos a contabilizar o lucro e a frequentar as concessionárias que vendiam as sonhadas caminhonetes que viriam a substituir nosso velho fusca. Finalmente tudo indicava que ficaríamos ricos, ao menos na nossa avaliação da época.

Passávamos os dias vendo previsões e torcendo para o clima ajudar. E ele realmente colaborou. A safra foi fantástica. Porém, ela não foi fantástica apenas para nós, mas para todos os agricultores que também tinham resolvido plantar a nova variedade. Os preços despencaram e, no final, não pagavam nem o preço da colheita.

Finalmente, conseguimos que um produtor de porcos comprasse o direito de soltar os animais para se alimentar das nossas outrora caras morangas. Ainda me lembro da expressão desolada do meu irmão, comentando da dor que sentia ao ver os porcos comendo nossas caminhonetes. O dinheiro deu apenas para reformar nosso velho fusca.

Como aprendemos com o primeiro artigo da série “Trilogia do risco”, para reduzirmos o risco e aumentar as chances de retorno, deveríamos plantar morangas em uma pequena parte da lavoura e milho em uma grande parte dela. Entretanto, será que aquela realmente era a estratégia correta para os dois pobres estudantes?

Em nossa vida cotidiana, costumamos interpretar o risco apenas como a possibilidade de alguma coisa dar errado. Mas, em finanças, risco é o desvio padrão em relação ao retorno esperado. Poderíamos ter ganhado muito dinheiro. Perdemos, mas naquele momento isso não causou um forte impacto na nossa vida.

A nossa lavoura de morangas não foi o primeiro nem o último risco que tomamos. Felizmente, alguns foram positivos e hoje evitamos correr riscos tão grandes, pois estamos mais velhos e nossa situação financeira é muito melhor.

Antes de correr riscos, imagine o impacto que o pior cenário pode causar na sua vida. Se você achar que as consequências são insuportáveis, este é um risco que você não deve correr. Já se considerar que consegue dar conta da situação, talvez o risco possa ser encarado. Tome cuidado para não proteger a pobreza, pois é a riqueza que deve ser protegida.

Na vida, podemos errar muitas vezes, só não é admitido errar na última tentativa. Depois de um fracasso, tente novamente. Se tiver sucesso, pense se não é hora de parar de correr riscos e proteger o que você conquistou.

Publicado no Portal iG

Jurandir Sell Macedo é consultor de Finanças Pessoais do Itaú Unibanco, professor da UFSC e fundador do IEF.

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1 comentário to “O milho e as morangas”

  1. Caro Prof. Jurandir!

    Histórias simples sempre possuem o fundamental atributo de tocar com maior profundidade à cada um! Obrigada pela lição!
    Falar sobre riscos, sobre gestão de riscos e pensar numa roça de cabotiás! Por isso então a “árvore do dinheiro”, ou, quem sabe, a roça de cabotiás e a falta de dinheiro…!
    Seu livro nos tem auxiliado muito nas atividades de extensão aqui na Universidade Estadual do Oeste do Paraná no projeto Primeiros Passos em Economia e Cidadania, exatamente porque fala de uma maneira simples e possível de ser compreendida por àqueles que plantam essas roças e que são clientes de nosso projeto…Sofrem sempre com os riscos!
    Tomara que possamos trazê-lo à Cascavel – Paraná para nos presentear com suas histórias! Estamos no aguardo.
    Profa. Mariângela Alice Pieruccini Souza
    Unioeste-Economia
    Cascavel/PR

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