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O lar, doce lar da classe D | Instituto de Educação Financeira

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O lar, doce lar da classe D

Tânia Gomes, com o aparelho que exibe os programas da tevê a cabo: reformas na casa sem apelar para o cheque especial

A auxiliar de serviços gerais Tânia Regina Gomes, 53 anos, mora na CIC, em Curitiba. Com uma renda mensal de R$ 919, ela sustenta sozinha os três filhos, de 11, 14 e 16 anos, e ainda consegue investir na reforma da casa. Tânia comprou recentemente um novo microondas, trocou o piso do imóvel e irá em breve ampliar o banheiro e a cozinha. Suas atitudes refletem o comportamento de boa parte da classe D, um grupo da população que, até pouco tempo atrás, estava excluída do mercado de consumo, mas que hoje tem condições de adquirir bens e serviços e desperta a atenção de muitas empresas.

A explicação para esse fenômeno, segundo especialistas, está ligada à região da moradia. Como normalmente residem em áreas periféricas e têm pouco acesso a opções de lazer, as pessoas da classe D tendem a ficar mais tempo em casa, e por isso esforçam-se para torná-la mais agradável. A busca por serviços de internet, telefone e tevê a cabo se justifica pelas mesmas razões. Na casa de Tânia, há telefone fixo e tevê a cabo. Ela gasta R$ 78 por mês com os serviços, mas garante que vale a pena. “O telefone é importante em caso de emergência, se precisar chamar alguém. E a tevê a cabo é para manter as crianças longe da rua”, conta.

Caracterizada pela renda familiar média de até dois salários mínimos, a classe D é um dos menores segmentos econômicos brasileiros, atingindo 15% da população. Só perde para a classe E, cuja renda familiar é inferior a um salário mínimo e abrange menos de 1% dos brasileiros.

No estudo “A Classe D e o Consumo”, elaborado pela consultoria de mercado Quórum Brasil, a tendência por consumir produtos para melhorar as condições de vida dentro de casa aparece com destaque. Depois dos alimentos e produtos básicos, os itens mais consumidos pela classe D são exatamente móveis e eletrônicos. O responsável pelo estudo, o pesquisador Claudio Silveira, avalia que o potencial de consumo da classe D não é maior porque esbarra na renda limitada e nas dificuldades de obtenção de crédito.

Mesmo assim, essas famílias ainda guardam dinheiro. Segundo a pesquisa, pelo menos 34% da classe D poupa mensalmente. Tânia, por exemplo, consegue guardar de R$ 50 a R$ 100 por mês. A tentativa de manter-se longe das dívidas também orienta seus gastos. Nas obras para a reforma da casa, ela preferiu não usar o cheque especial oferecido pelo banco, mesmo sabendo que os recursos adicionais poderiam acelerar a obra.

Preço não é tudo

Na hora de comprar, principalmente roupas e alimentos, a maior parte da classe D ainda prioriza os preços mais baixos. Mas quando se tratam de eletrônicos ou eletrodomésticos, para metade dos compradores da classe D a qualidade do produto é tão importante quanto o preço baixo.

Nas lojas de varejo mais populares, a classe D é responsável por boa parte das vendas. O superintendente do Grupo MM, rede de varejo que atua nos estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo, Márcio Pauliki, explica que a classe D é responsável por pelo menos 30% das vendas nas lojas do grupo. Os produtos da linha branca são os mais consumidos, além de tevês, móveis e celulares. Normalmente, as com­­pras são feitas através de crediários, que chegam a ser quitados em 12 meses. “A opção é por produtos mais baratos; eles não são tão ligados a marcas. A classe D avalia primeiramente o preço antes de comprar”, ressalta o empresário.

Qualificação

Dependência de programas sociais é preocupante

Mesmo tendendo a ascender economicamente em poucos anos, muitas famílias das classes D e E ainda dependem de políticas públicas de transferência de renda. O fim dessa dependência passaria pela maior qualificação dos trabalhadores e a fortificação de uma economia de pleno emprego, que, na avaliação do pesquisador da UFPR João Basílio Pereima Neto, teria como consequência direta o aumento dos salários e do consumo. “Há muito espaço para crescer com a incorporação de trabalhadores ao mercado, o grande entrave é a falta de qualificação. As classes mais baixas ainda não têm acesso à educação”, avalia.

A melhor forma de substituir os programas de transferência de renda passa pela melhoria dos salários. Essa seria a solução, de acordo com Pereima Neto, para aliar transferência de renda e crescimento econômico. Em 2011, o Brasil cresceu apenas 2,7%, segundo o IBGE, o que é muito pouco na avaliação do especialista. Para ele, o país vai continuar crescendo se houver distribuição de renda, acesso à educação e fomento a programas de qualificação profissional. Desta maneira seria possível atingir índices de crescimento de 5% a 6% ao ano, mesmo diante da conjuntura econômica mundial.

Comportamento

Status não motiva consumo da classe D

A busca pelo bem-estar é o principal motivador do consumo das famílias de baixa renda, segundo o consultor e doutor em finanças comportamentais Jurandir Sell Macedo. Ele lembra que até pouco tempo atrás a classe D não possuía bens básicos para o conforto da família e dependia de doações para conseguir alguns itens. “Imagine como uma máquina pode melhorar a vida de uma família que quebrava o gelo do tanque para lavar roupa nos dias de frio”, exemplifica.

Autor dos livros A Árvore do Dinheiro e Finanças Comportamentais, entre outros títulos, Macedo afirma que esse grupo consome, sobretudo, para o bem-estar, e não para mostrar status, como costuma ocorrer com as classes mais altas.

Sobre o fato de metade da classe D levar em conta a qualidade na hora de comprar eletrodomésticos, conforme revelou pesquisa da Quorum Brasil, o consultor ressalta que avaliar o custo-benefício na aquisição desses itens é um comportamento esperado porque se trata de uma compra refletida, feita com dinheiro guardado ou em longas prestações. “Não se pode correr o risco de olhar apenas para o preço”, diz.

Região

Classe D curitibana é uma das menores do país

Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), 474.210 curitibanos pertenciam às classes D e E em 2003, o equivalente a 28,57% da população. Em 2009, o número caiu para 244.780 pessoas (13,23%).No mesmo período, as classes A e B saltaram de 17,5% para 28,5% do total de habitantes. Cerca de 150 mil pessoas ascenderam à classe A na cidade, cuja população é de 1,2 milhão.

Em 2012, segundo o Critério Brasil de Classificação Econômica, apenas 10,9% da população pertence à classe D, colocando a capital paranaense como uma das menores do Brasil em número de habitantes com baixa renda. Entre nove regiões metropolitanas pesquisadas, Curitiba só perde para a Porto Alegre, que, segundo o levantamento, possui 10,5% de população na classe D.

Parte dos bons resultados de Curitiba está ligada aos altos índices de escolaridade da população. Marcelo Neri, pesquisador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), vê a educação como um diferencial significativo. “Curitiba tem as melhores notas do Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] na quarta série. Além disso, é uma cidade notadamente reconhecida pela forte concentração de capital humano e social”, assinala.

Do Portal Gazeta do Povo
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