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O jogo da confiança | Instituto de Educação Financeira

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O jogo da confiança


Do Valor Econômico

Anna Lygia Costa Rego: fatores jurídicos acabam em segundo plano em relação aos econômicos na hora de ganhar a confiança do investidor externo

O que leva um investidor que mal sabe onde fica o Brasil a destinar parte de seus recursos ao país? E que fatores o fazem sair do país tão rápido quanto entrou? Ou por que o estrangeiro confia mais que o brasileiro no mercado local?

Para responder a essas perguntas, a advogada Anna Lygia Costa Rego, do escritório Trench, Rossie Watanabe Advogados, procurou 50 investidores, locais e estrangeiros e reguladores do mercado, para saber o que os faz confiar no país e o que mais eles temem. O resultado da pesquisa revela que alguns vícios dos grandes investidores são iguais aos de qualquer pequeno aplicador na hora de tomar decisões. O trabalho transformou-se em tese de doutorado defendida no ano passado na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Perguntados sobre se confiam no Brasil, 75% dos estrangeiros responderam que sim, número que cai para 45% no caso dos brasileiros. Segundo Lygia, isso mostra que os motivos para estrangeiros e locais confiarem no país são diferentes, apesar de os dados econômicos analisados serem os mesmos.

Para Lygia, há um certo exagero nas duas pontas. “De 1990 para cá, a confiança dos estrangeiros no Brasil melhorou muito, mas nem tanto com os locais”, diz. Entre os brasileiros ouvidos estão representantes de corretoras, escritórios de advocacia e bancos. “Os outros 55% locais confiam desconfiando, são muito céticos com o futuro do país.”

O principal problema do Brasil para os brasileiros é a morosidade do Judiciário, enquanto, para o estrangeiro, é a corrupção, diz Lygia. Já com relação à confiança, para o estrangeiro, é mais importante o retorno do investimento do que o arcabouço legal. Já para o brasileiro, o fator de confiança é a estabilidade econômica e o controle da inflação.

Um ponto importante na pesquisa de Lygia é que, depois do controle da inflação, o principal fator de confiança dos investidores locais é o crescimento econômico. Somente em terceiro lugar aparece a segurança jurídica, que deveria ser justamente o que garantiria o cumprimento das regras dos mercados. A explicação de Lygia é que, apesar de não ser citada, a segurança jurídica aparece subliminarmente. “Os reguladores também afirmaram que os fatores econômicos vêm antes na definição da confiança”, diz.

Para Lygia, o governo Lula melhorou a expectativa e a confiança em relação ao Brasil, especialmente no exterior, ao respeitar os contratos, controlar a inflação e levar o país a retomar o crescimento. Agora, a estabilidade da inflação é novamente o desafio do novo governo para conquistar a confiança. “Outro passo é mostrar que a intervenção do Estado na economia não é uma regra, mas exceção, e aparar as arestas que estão afetando a confiança dos agentes locais e estrangeiros.”

O fundamento do trabalho de Lygia é que, apesar de toda a base racional dos investimentos, tudo está lastreado na confiança. “Se não confia na contraparte, ou o banco exige tanta garantia que torna a operação inviável ou nem faz.” Confiança, admite ela, pode ser um tema abstrato, mas está presente no dia a dia de todos. “Um empresário tem de confiar em seus funcionários, senão a empresa não funciona, pois não há como fiscalizar todos o tempo todo”, diz.

Ao mesmo tempo, sabe-se que reconquistar a confiança é um processo muito mais complexo do que criá-la. “Por isso resolvi trabalhar com essa variável no campo do investimento”, afirma.

De acordo com ela, a primeira observação é que aumentar a regulamentação é a primeira medida para tentar recuperar a confiança abalada entre os agentes econômicos. Um exemplo disso é a lei americana Sarbanes-Oxley depois do caso da quebra fraudulenta da empresa de energia Enron em 2001. E que se repete hoje com a tentativa do governo americano de reforçar a fiscalização sobre os bancos e os derivativos depois da crise de 2008.

Segundo Lygia, apesar de a questão da confiança ser tratada por muitos grandes gestores internacionais de recursos como derivada de fatores técnicos, há uma questão afetiva e que envolve a psicologia do investidor. “Recorri a dois autores, os israelenses Daniel Kahneman e Amos Tversky, e sua ciência cognitiva, as escolhas irracionais humanas, para explicar como se dá a criação da confiança”, explica.

Os estudos dos dois autores, que renderam a Kahneman o Prêmio Nobel de Economia de 2002, conseguiram convencer os economistas mais ortodoxos de que nem sempre a racionalidade é que comanda as decisões.

Ela dá os exemplos também de outros autores como Kenneth Arrow, que classifica que os países mais atrasados do mundo são os que apresentam maior falta de confiança de seus agentes. Cita também o ex-presidente do Fed, o banco central americano, Alan Greenspan, que se surpreendeu ao analisar os mercados dos EUA e concluir que todas as transações são feitas por necessidades espontâneas dos agentes e muitas delas são acordos verbais que depois são registrados oficialmente. Dessa forma, a confiança seria o maior valor de uma empresa.

Um exemplo de como essa confiança pesa no mercado é novamente o caso Enron. A descoberta das irregularidades em uma das maiores empresas do mercado americano abalou não só a confiança nas empresas, como também nas auditorias em geral e no mercado.

O que Lygia tenta mostrar é como a confiança entra na questão dos erros dos investidores, usando as teorias de Kahneman e da irracionalidade na hora da tomada das discussões. E como isso leva um investidor a confiar em determinado mercado e não em outro. O que fica claro é que, se um país perde a confiança dos investidores, ele demora a recuperá-la, mesmo que os fatores que tenham levado ao problema já tenham sido eliminados. Foi assim com o Brasil na década de 90 após a crise da dívida externa.

Isso é reforçado pelo fato de todos os investidores internacionais olharem apenas duas ou três fontes de informações, em geral grandes bancos ou agências de rating. Isso tudo acentua movimentos de manada como os que ocorreram na época das crises dos mercados emergentes nos anos 90 e mais recentemente em 2008. “O medo das perdas faz os investidores tomarem decisões rápidas e acompanhando o mercado”, diz.

Lygia chama a atenção para o fato de que os investidores usam as mesmas palavras para definir a confiança, tanto na China quanto no Brasil. Uma das razões para isso é o efeito da imprensa como formadora de opinião e fonte das probabilidades de ocorrência de problemas.

Por isso, as pessoas usam exemplos de confiança dados pela imprensa para basear suas opiniões. “Hoje a confiança não é vista como uma questão técnica pelos investidores, assim como a transparência também não era há alguns anos”, diz Lygia.

A proposta de Lygia é tentar criar um sistema para analisar os fatores que influenciam a confiança e usar isso como política pública, corrigindo os fatores que possam distorcer a imagem do país lá fora ou internamente.

Na hora H, emoção dita reação do grande investidor

Olhando a forma como as decisões de investimento são tomadas e os erros mais comuns, a advogada Anna Lygia Costa Rego detectou que os grandes gestores em geral têm de tomar muitas decisões em pouco tempo, o que os obriga a usar uma fórmula para decidir mais rapidamente, uma espécie de atalho nas análises complexas. E esse atalho é que leva aos erros mais comuns.

O primeiro desses comportamentos é o da representatividade. “É aquele que, em uma festa, nos faz procurar os que seriam do nosso grupo”, diz Lygia. Esse comportamento leva à criação de estereótipos de investimentos. É o que faz com que um problema na Venezuela derrube os papéis de toda a América Latina. “O investidor tem um estereótipo da região e coloca todos os países no mesmo saco, ignorando a história de cada um e até o nexo causal dos problemas.”

Há também a malícia, em que o investidor elege um mercado para ser a “bola da vez” do próximo problema ou da recuperação. Com a crise de 2008, por exemplo, e os países desenvolvidos perdendo credibilidade, o Brasil se tornou a “bola da vez” positiva entre os países com bom potencial e passou a atrair recursos de todo o mundo, mesmo de quem nem conhecia o país.

Outro fator comportamental que influencia o investidor externo é a disponibilidade. É ele que mexe com a opinião das pessoas sobre o risco de voar quando há um acidente de avião, por exemplo. Probabilidades baixas passam a ser altas por um período.

Na mesma linha, riscos são ignorados por sua baixa chance de ocorrência. “No Brasil, após o Plano Collor, que congelou os investimentos, por exemplo, todos passaram a perguntar sobre o risco de confisco de aplicações financeiras”, lembra Lygia. Essa preocupação diminuiu com o tempo, mas continua existindo.

Esse tipo de reação deu origem à teoria dos cisnes negros, de Nicholas Taleb. Os cisnes negros seriam os eventos não previsíveis do mercado. E, se não há probabilidade avaliável de ocorrerem, não é possível criar contingência para eles. É o caso de uma quebra institucional do mercado. “É preciso fazer um esforço para tentar pensar o improvável e imaginar qual seria a capacidade de improviso para lidar com ele”, diz.

Um terceiro viés adotado pelos investidores é a ancoragem. O investidor tende a se apoiar em valores e informações dadas por terceiros. Foi o caso quando houve a melhora do rating do Brasil em 2008, que fez a bolsa local subir, mesmo que isso não significasse a melhora imediata do país. Nesses casos, fala mais alto a disponibilidade das informações. “Somos pouco críticos em relação aos dados que recebemos e tomamos como verdade o que vem do advogado, do jornalista ou do banco.”

Outro fator é a moldura, que nos faz responder aos fatos com base no contexto em que vivemos. Para testar isso, Lygia montou dois grupos de alunos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e abordou com eles a questão da derrubada de Manuel Zelaya da Presidência de Honduras. No primeiro, Lygia montou um questionário criando uma moldura negativa, induzindo a uma conclusão ruim sobre Honduras. Em seguida, aplicou um questionário sobre o Brasil e as respostas também foram negativas. Já no segundo grupo, que não viu o questionário sobre Zelaya, as avaliações sobre o Brasil foram bem melhores.

Esses fatores, diz Lygia, poderiam ser usados para reforçar a confiança no país.

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1 comentário to “O jogo da confiança”

  1. Show de post, realmente a confiança é algo que nos tempos de hoje pesa muito, pois decisões variadas são tomadas em todas vertentes e a cada uma, o estereótipo já criado, influencia, sendo este formado pela confiança que já se tem.

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