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Muita calma nessa opção | Instituto de Educação Financeira

Finanças Pessoais

Muita calma nessa opção

A investidora Helena Abdalla começou a operar sozinha, acumulou prejuízos, mas estudo melhorou seu desempenho

A aposta parecia uma barbada. Afinal, naquele ano, a Petrobras dava indícios de que caminhava para conquistar o mundo: em maio de 2008, havia atingido o maior valor de mercado da sua história. Alcançou nada menos que R$ 510,4 bilhões e até desbancou, por certo tempo, a Microsoft como a terceira maior companhia das Américas. Em condições tão favoráveis, o investidor – ou “trader” no jargão do mercado – Darlan Marco Cioletti, na época com 27 anos, estava mais do que acostumado a ganhar com opções da petroleira. O operador não se lembra do dia exato, mas, em apenas duas horas de um pregão no mês seguinte ao recorde de capitalização da gigante brasileira, seus ganhos viraram cinzas. Em um curtíssimo espaço de tempo, perdeu 80% do que havia conseguido até aquele momento, após uma queda inesperada nas cotações em bolsa. “Minha posição virou pó”, afirma.

Meses mais tarde, em um movimento carregado de ironia, mas não por acaso, Cioletti recuperou os valores. A volta por cima veio com uma operação de “day trade”, ou seja, uma negociação feita no mesmo dia, de compra e venda de opções da OGX, a companhia de petróleo do empresário Eike Batista, que havia realizado sua oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) naquele mesmo fatídico mês de junho de 2008, no qual o investidor sofreu seu maior tombo. “Hoje, se fosse voltar a mexer com opções teria um limite máximo de perda e não acreditaria mais em estratégias mirabolantes”, afirma Cioletti, que está longe do mercado há mais de três anos.

A experiência vivida por Darlan Cioletti, embora pareça surpreendente, é, na verdade, corriqueira para quem opera as chamadas opções. Estes contratos permitem a aquisição ou a venda de direitos de negociação futura de ações ou índices.

O empresário Darlan Cioletti lamenta ter acreditado em “estratégias mirabolantes” quando começou a operar na bolsa

Uma opção de compra (chamada de ‘call’) confere a seu titular o direito de adquirir as ações-objeto a um preço definido, durante um determinado período ou em uma data predeterminada. Além disso, o titular pode, a qualquer tempo, negociar no mercado seu direito de compra. Já o lançador de uma opção de venda (‘put’) é o investidor que vende a opção no mercado mediante o recebimento de um prêmio, assumindo assim a obrigação de comprar as ações-objeto quando receber o aviso de que sua posição foi exercida.

Como variam de preço com velocidade e amplitude muito maiores do que as ações empresas listadas no pregão da bolsa, as opções se tornaram sinônimo de ganhos altos e rápidos. Mas também de riscos igualmente elevados.

Por suas características – permitem investir valores pequenos com alavancagem, podem oferecem retorno alto em pouco tempo e potencializam ganhos nos períodos de volatilidade do mercado -, os instrumentos acabam atraindo aqueles investidores que focam no potencial e esquecem de contrabalançar os riscos envolvidos. Gente em busca de ganho fácil, novatos com sede de reconhecimento e até pessoas que encaram as operações como um jogo fazem parte de uma lista que acumula perdas muitas vezes além da capacidade financeira.

“Existe um raciocínio que, infelizmente, é muito usado na bolsa pelos iniciantes: ‘eu tenho pouco dinheiro então posso fazer tudo errado até eu ter muito dinheiro’”, diz Mauricio Bastter, coordenador do site bastter.com, voltado à educação financeira.

Na avaliação do consultor de finanças pessoais do Itaú e professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Jurandir Sell Macedo, “a adrenalina do mercado de opções é muito atrativa”. Ser reconhecido também motiva muitos a entrar no segmento. “Muita gente conta vantagem quando ganha e fica quieto quando perde”, diz o especialista.

Em 2012, a quantidade de negócios com opções do segmento Bovespa – que envolve contratos de ações e índices da bolsa – cresceu 39% em comparação ao ano anterior. O segmento tem crescido a uma média de 28% ao ano desde 2008.

Hoje a BM&FBovespa é o maior mercado do mundo em número de negócios com opções, de acordo com dados da World Federation of Exchange (WFE). E metade das operações é realizada por pessoas físicas, segundo dados da própria bolsa brasileira.

O trader e analista técnico Andre Moraes, de 36 anos, conta que operou regularmente com opções até perder um “carro zero” em 15 minutos. Hoje ele prefere fazer negócios nos segmentos de índices e de commodities da BM&FBovespa. “Eu realmente não conheço ninguém que no longo prazo tenha ganhado dinheiro operando opções a seco [negociação alavancada a descoberto]“, afirma.

Para o investidor profissional e dono de uma empresa de educação financeira Igor Rodrigues Luis, de 31 anos, “o investidor quando está começando é incentivado pelos participantes a entrar nesse tipo de operação, que é a mais perigosa da bolsa”.

O trader conta que há oito anos faz negócio no segmento de opções. Mas, para conseguir montar uma estratégia sustentável, perdeu R$ 330 mil no caminho. “Tinha um capital de R$ 400 mil reais da venda de um imóvel da família. Resolvi ir ao mercado de opções. Comecei errado, sem estudar e tinha resolvido que iria ganhar dinheiro muito rápido. Quando parei, quatro meses mais tarde, tinha sobrado R$ 70 mil”, afirma.

O investidor, após o revés, decidiu aprender com operadores mais experientes. Um ano mais tarde, ele afirma que os R$ 70 mil que restaram da primeira empreitada transformaram-se em R$ 700 mil. “O maior ganho que tive foi em 2008, quando a Petrobras anunciou a descoberta do poço de Tupi. Tive uma rentabilidade de 800% naquele dia”, diz.

O grande risco do segmento de opções relaciona-se às chamadas ‘operações a seco’, ou seja, negociações a descoberto, com alavancagem. Nesta situação, o lançador oferece ações que não têm em mãos e aposta na queda das cotações. Entretanto, caso o papel suba, o prejuízo é multiplicado.

A ex-dona de casa e hoje investidora Helena Abdalla, de 50 anos, conta que entrou direto neste tipo de operação. “Ganhei R$ 350 no meu primeiro ‘day trade’ [operação de um dia].” Na época, chegou a ter lucro de R$ 3 mil em uma operação.

Dona Helena – como ficou conhecida – ingressou tarde no mercado, aos 47 anos. Até então, sua familiaridade com finanças se resumia ao orçamento da família, que gerenciava em sua rotina como dona de casa. “Meus dois filhos já estavam criados e meu marido tinha ficado doente. Pedi para meu filho me ensinar a entrar no computador, visitei o site da bolsa e comecei”, diz.

Mas aos sucessos iniciais logo seguiram-se os tombos. Helena havia acumulado um prejuízo de R$ 14 mil quando decidiu fazer um curso com um profissional especializado em uma corretora. Desde então, segundo ela, passou a ter mais ganhos que perdas e conseguiu recuperar-se do rombo inicial.

De sua experiência no mercado Dona Helena desaconselha a operação a seco: “é muito arriscada”. A investidora ressalta que “é necessário aprender para depois operar com opções”. Ela própria se afastou das transações deste tipo: “hoje meu foco está em palestras, como consultora de educação financeira”.

Do Jornal Valor Econômico
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