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Funcionário endividado é risco ao bom desempenho | Instituto de Educação Financeira

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Funcionário endividado é risco ao bom desempenho

Tatiane seguiu à risca tudo o que aprendeu no cursos e conseguiu quitar o que devia e financiar um apartamento. Foto: Alex Silva/AE

Foi um programa de reeducação financeira oferecido pela empresa que fez a coordenadora de departamento pessoal da Doc Contabilidade, Tatiane Fernandes Borzi, de 29 anos, conseguir colocar as contas em dia e financiar um apartamento. Há quase um ano, ela estava com o limite dos cartões de crédito estourado, devia em torno de R$ 13 mil e seus gastos mensais superavam os rendimentos.

“Eu não enxergava uma forma de sair do vermelho. Quando o programa começou e nos explicaram a importância de organizar as finanças, me dei conta de como fazer para sair daquela situação e nunca voltar a dever.”

A situação de Tatiane não é um caso isolado. “O endividamento é uma realidade no Brasil e atinge todos os níveis sociais. É mito dizer que quem ganha mais não tem problemas financeiros”, diz a consultora Cecília Cibella Shibuya. As dívidas em atraso no País cresceram 19,1% no primeiro trimestre deste ano, comparadas às de igual período no ano passado.

O crescimento do endividamento vem fazendo com que empresas se preocupem com a saúde financeira dos funcionários e e invistam em programas de orientação sobre o uso consciente do dinheiro. “As companhias precisam mesmo começar a se movimentar neste sentido, porque a inadimplência afeta a saúde, acaba gerando briga e até separação conjugal. E tudo isso se reflete no desempenho do próprio trabalho”, afirma a consultora. Cecília estima que a produtividade de um funcionário endividado caia pela metade. “É difícil para ele. Só consegue pensar na dívida”, comenta.

A melhor forma de iniciar este processo, segundo Cecília, é com a reeducação financeira. “Muitos trabalhadores recebem adiantamento salarial, o conhecido vale, e não contabilizam isso quando planejam os gastos do salário. As contas já são feitas com este desfalque”, diz. E acrescenta: ” Quando a empresa começa a oferecer este tipo de planejamento, explicando como usar uma planilha orçamentária, por exemplo, já começa a mudar a cultura de gastos.”

Por ter passado por problemas financeiros no passado e ter conseguido superá-los com a ajuda de orientação de profissionais, a gestora de recursos humanos da Doc Contabilidade, Carla Alvares Chiomento, de 44 anos, resolveu investir na implantação de programas desse gênero na empresa.

Cláudia gasta menos hoje. Foto: Hélvio Romero/AE

“Começamos a perceber que os funcionários estavam pedindo cada vez mais antecipação do 13º salário, queriam vender as férias e estavam pedindo mais empréstimos. Isso tudo reflete na qualidade de vida deles e até no desempenho profissional na empresa. Por isso, resolvemos oferecer auxílio”, conta.

A companhia contratou uma consultoria especializada neste tipo de orientação e viu o grau de endividamento dos funcionários cair de 39% para 11% em um período de cinco meses. “Eles só estavam precisando de uma ajuda para aprender a usar o dinheiro de forma consciente.”

No caso de Tatiane, ela seguiu à risca, todos os ensinamentos: fez uma planilha de gastos, estabeleceu metas e prazos para conquistá-las e renegociou todas as dívidas. “Dá para conseguir muitos descontos com os credores.”

Segundo o presidente da DSOP Educação Financeira, Reinaldo Domingos, é possível obter bons resultados com as negociações. “Já vi consumidor que devia R$ 100 mil e quitou a dívida com R$ 20 mil. Então, negociar é o melhor caminho para começar a sair do vermelho. Mas a mudança de cultura também é fundamental para se atingir o objetivo.”

Após um período desempregado, o eletricista C. R. S., de 25 anos, ficou tomado de dívidas. “A empresa de um amigo ofereceu um curso de educação financeira e abriu para amigos e parentes. Ele me levou e foi lá que aprendi a me controlar.”

Há três meses trabalhando em uma nova empresa, o eletricista garante que aprendeu a lição: “Minha situação se agravou com o desemprego, mas somente colocando tudo no papel eu tive ideia de quanto gastava a mais.”

Ele conta que a maior dificuldade foi mostrar para a família que realmente tinha mudado. “Quando a gente é um devedor convicto, perde a credibilidade. Toda vez que falava em economizar me questionavam: ‘justo você falar em economia?’”

Para Domingos, quando o grau de endividamento chega a um patamar aparentemente impossível de ser quitado, o negócio é pensar como aquele ditado popular “devo, não nego, pago quando puder” e começar a fazer um planejamento para estabelecer em quanto tempo será possível quitar a dívida.

“É importante estabelecer metas e incluir a família no processo. Fazer um diagnóstico de onde é possível cortar gastos e mostrar para eles a importância de se poupar para conseguir conquistar um sonho. Para que todos participem ,é legal que a família estabeleça o tempo e os sonhos que desejam conquistar juntos.”

A analista de recursos humanos da Search RH, Claudia Ito, de 25 anos, conseguiu transmitir para a família o que aprendeu nos cursos que participou na empresa. “Minha família não gastou mais do que ganhou. Mas não conseguíamos poupar. Depois que começamos a planejar e a colocar tudo na planilha, ficou mais fácil para identificarmos nossos exageros”, comenta.

Cláudia conta que hoje paga um plano de previdência privada e ainda consegue economizar 15% da sua renda. A sobra, ela investe na caderneta de poupança. Como meta para o próximo ano, planeja comprar um carro.

“Débito atrapalhava minha vida pessoal e profissional”

Adilson colocou as contas em dia e hoje orienta amigos sobre gastos. Foto: Tiago Queiroz/AE

Ao ver um banner com os dizeres “Saia do Vermelho” no site do Itaú Unibanco, empresa onde trabalha como operador, Adilson Matias França, de 30 anos, percebeu que era o momento de mudar de comportamento e começar a pensar em como pagar as dívidas e guardar dinheiro.

“Já não aguentava mais ficar estressado pensando nas dívidas. Isso vinha me atrapalhando na vida pessoal como profissional. Resolvi assumir que tinha problemas e pedir ajuda.”

França ficou endividado durante um ano. Hoje, três anos depois de participar do programa d o banco, subiu do patamar de devedor para investidor. O que é, segundo a consultora Cecília Cibella Shibuya, muito raro. “É mais frequente um equilibrado cair para o nível de endividado do que um endividado subir para o nível de investidor”, comenta.

O operador já se arrisca, inclusive, a dar dicas para os amigos e familiares. “Tenho muitos afilhados e já falei para os pais a importância deles começarem a pagar um plano de previdência privada desde cedo para as crianças.”

O programa “Uso Consciente do Dinheiro” do banco é oferecido tanto para correntistas como para funcionários. “Nossos colaboradores também são clientes. Todos têm conta aberta no banco, acesso a crédito, cheque especial e, se não tiverem cuidado, podem cair no endividamento”, diz a diretora de sustentabilidade do Itaú Unibanco, Andrea Pinotti Cordeiro.

Para ela, a educação financeira, assim como qualquer base cultural, social ou de cidadania deve começar em casa. Mas, afirma, se a base familiar não contribui para o uso consciente do dinheiro, é possível fazer uma reeducação com base em metodologias. O banco oferece vários cursos a distância, presenciais, simuladores de orçamento e, em alguns casos, orientação individual. “Mantemos os programas permanentes porque acreditamos que isso favorece a reciclagem de quem já passou pelas nossas orientações e a iniciação da educação financeira para os novos funcionários”, diz.

A técnica do banco é aprovada pelo presidente da DSOP Educação Financeira, Reinaldo Domingos. “Mudar a cultura financeira de uma pessoa é complicado e requer tempo e muito trabalho de conscientização. Envolve vários fatores pessoais e, principalmente, a estrutura familiar”, esclarece. Domingos ressalta que trabalhos isolados podem não surtir o efeito esperado. “Não adianta a empresa oferecer uma palestra isolada de planjemaneto financeira e a melhor forma de investir.”.

Do jornal O Estado de S. Paulo
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