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Crianças ensinam 'marmanjos' a dar os primeiros passos na bolsa | Instituto de Educação Financeira

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Crianças ensinam ‘marmanjos’ a dar os primeiros passos na bolsa

 

Jovens visitam a BM&F Bovespa, em São Paulo

Gustavo Arruda Macedo investe na bolsa de valores há sete anos. Nada de extraordinário, não fosse o fato de que ele tem hoje apenas 15 anos de idade. Nesse período, conta, foi a três reuniões de executivos de empresas com analistas e investidores, as chamadas “Apimecs”. “Gosto de ir porque me sinto importante”, afirma. “Não entendo todos os assuntos discutidos, mas compreendo na medida do possível”, admite. Na primeira vez, o estudante tinha apenas oito anos de idade. “Lembro que todos os homens estavam de terno e eu quis comprar um terno também”, brinca.

Há pouco mais de duas mil crianças com até 15 anos com investimentos na bolsa de valores, segundo dados mais recentes da BM&FBovespa. As contas das crianças nas corretoras são geralmente abertas pelos pais com os dados dos filhos. As perguntas que os pais comumente fazem são: será que o lugar do meu filho é mesmo em frente a uma tela de computador, observando a rentabilidade de seu portfólio? Ele não deveria estar em um parque de diversões ou jogando videogame? Como posso ensiná-lo a investir?

Celina Arruda Macedo, especialista em finanças, autora do livro “Filhos: seu melhor investimento” (Elsevier Editora) e mãe do Gustavo, explica que o contato com os investimentos desde cedo pode ser benéfico. “É necessário que a criança aprenda a lidar com o dinheiro”, afirma. “Quando os pais ensinam aos poucos como investir, ela aprende a poupar. Pode ser pensando na aposentadoria, na faculdade ou em uma viagem ao exterior. Não importa. No longo prazo, a bolsa funciona muito bem”.

Celina relata que nos Estados Unidos é comum os pais comprarem ações para os filhos. E eles, após determinada idade, em muitos casos começam a tomar decisões de investimentos por iniciativa própria. “Nessa etapa, os pais devem orientar, esclarecendo, por exemplo, os riscos da renda variável e perguntar que empresas a criança admira, ou seja, quais ações ela gostaria de comprar”, explica.

No Brasil, o mercado acionário não é tão popular quanto nos EUA, de forma que é também pouco difundido entre crianças e adolescentes. Mas isso pode mudar. “A alta volatilidade do Índice Bovespa nos últimos anos deve reduzir o ritmo de crescimento das pessoas físicas na bolsa. Mesmo assim, acredito que a tendência é de aumento da participação infanto-juvenil entre os investidores, até como reflexo das muitas ações de educação financeira voltadas para o público infantil, incluindo algumas da própria BM&FBovespa”, afirma Álvaro Modernell, especialista em educação financeira e membro do Grupo de Apoio Pedagógico na formulação da Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef), uma iniciativa do governo federal.

Gustavo Arruda Macedo acumulou R$ 15 mil ao direcionar de maneira rotineira parte da mesada à bolsa de valores. Ele revela que sempre foi poupador ou “dinheirista”, em suas palavras. “Quando era pequeno, era bem ‘dinheirista’, era chamado de pão-duro, porque não gostava de gastar”, conta. “Lembro de uma vez em que fomos à padaria e minha mãe não tinha dinheiro. Emprestei para ela, mas avisei que teria de pagar juros”, brinca.

Gustavo também lembra em tom bem-humorado que, desde que se conhece por gente, tem um objetivo de vida: ter mais dinheiro que sua irmã, que também investe em ações desde cedo. “Meus pais perguntaram que ações queríamos comprar. Eu sempre gostei de bancos, por isso comprei papéis de uma grande instituição financeira, enquanto minha irmã escolheu uma empresa de alimentos, porque gostava dos produtos fabricados. Quando minha família ia ao supermercado, pedia para não comprar as mercadorias dessa empresa, para as ações da minha irmã não subirem”, lembra.

Quem também começou a investir aos oito anos foi a atriz Alice Wegmann, a Sofia da novela global “A vida da gente”, que se encerrou há pouco. “Comecei a trabalhar nessa época, fazia comerciais. Meu pai perguntou se não queria guardar o dinheiro que recebi, no lugar de gastar. Concordei”, conta. Hoje com 16 anos, ela dá a dica: “O dinheiro para gastar no curto prazo eu ponho na poupança e, no longo prazo, coloco em ações.”

O incentivo do pai foi crucial para a educação financeira de Alice, que até hoje aplica ao menos 60% de seus ganhos. “Vejo muita gente da minha idade que trabalha neste ramo gastando muito com roupas e eletrônicos, sem pensar no futuro. Acho importante poupar”, diz.

O especialista em educação financeira Modernell opina que é precipitado ensinar ao filho com menos de 12 anos a investir em ações. “Como instrumento didático, as contas de poupança são mais recomendadas nessa idade”, argumenta. “Porém, a partir da adolescência é saudável que sejam apresentados outros instrumentos, inclusive ações”.

Até os 14 anos de idade, o especialista recomenda que o jovem tenha poucos ativos. No caso das ações, o conselho é optar pelas mais líquidas e de empresas relacionadas ao universo do filho, ou seja, que vendam algum produto ou serviço que a criança conheça. “Nessa fase, os objetivos não devem ser os resultados, mas o aprendizado. Os valores devem ser limitados.”

Celina enfatiza a importância de explicar à criança que, ao comprar uma ação, ela está adquirindo um “pedaço” de uma empresa. “As crianças adoram quando escutam que são donas de uma companhia”, diz, ao acrescentar que não é preciso “complicar” na hora de ensinar. “É difícil explicar a uma criança porque um determinado papel está barato ou caro, por exemplo. A ideia é mesmo focar na relevância de se ter um plano de investimento, para atingir objetivos futuramente. Com o passar do tempo, quando tiver mais experiência, o jovem conseguirá escolher empresas e montar seu próprio portfólio”, afirma.

Foi assim com o Gustavo, que, aos 15 anos, mostra uma maturidade na administração de seus recursos de dar inveja aos adultos. “Os pais dos meus colegas às vezes pedem dicas de investimentos para mim”, conta. “No começo, quando era pequeno, foram meus pais que me levaram a comprar ações. Mas chegou uma hora em que eu mesmo queria investir”.

Ele acompanha a rentabilidade dos investimentos com regularidade e lembra que, após a quebra do banco americano Lehman Brothers em 2008, assustou-se com a desvalorização das ações de sua carteira. “Tinha R$ 10 mil que, após seis meses, viraram R$ 5 mil. Pensei em trocar tudo por títulos do Tesouro”, lembra. “Meu pai sempre me alertou sobre os riscos [da bolsa], mas eu nunca tinha vivenciado uma crise. No fim, mantive os papéis”. Hoje o estudante tem o objetivo de comprar um carro quando completar 18 anos e, por isso, está pensando em comprar mais ações.

Em vez de parque, visita ao pregão

“O brasileiro tem preguiça. Além disso, não tem muita educação financeira”, diz Guilherme Pinheiro Bortolato, 14 anos, ao tentar explicar o percentual pequeno de pessoas físicas investindo diretamente na bolsa, durante uma excursão de sua turma à sede da BM&FBovespa. Os estudantes do nono ano do Colégio Raposo Tavares, localizado na zona sul de São Paulo, foram à bolsa para aprender sobre o mercado de ações no início de abril.

O rapazinho pondera ainda que a televisão nunca mostra “o lado bom” da bolsa de valores. “Nas novelas e nos telejornais, quando alguém investe na bolsa sempre perde. É preciso falar das coisas boas. Na crise de 2008, por exemplo, o governo fez a economia continuar a caminhar, incentivando o povo a consumir”, afirma.

O estudante Guilherme Bortolato: "Na TV, quando alguém investe na bolsa perde. É preciso falar das coisas boas"

Ana Maximino Coradi, também de 14 anos, acredita que o principal erro dos brasileiros é investir em empresas que não conhecem direito. “Os investidores compram ações de companhias que nunca ouviram falar, sem saber como é administrada e se é lucrativa”, afirma, ao acrescentar que os brasileiros não sabem como a bolsa funciona e acabam se iludindo muito.

Guilherme avisa que o Brasil será uma potência da economia mundial, “então vale a pena investir na bolsa visando ao longo prazo”. Ana concorda: “A perspectiva para a bolsa no futuro é bem positiva”, diz.

Logo no começo da visita, um instrutor da bolsa falou a respeito do extinto pregão presencial e sugeriu que simulassem como as negociações eram feitas antigamente. Em seguida, separou as crianças em dois grupos, o dos compradores e o dos vendedores. Os primeiros tinham de gritar “Compro a R$ 5″, enquanto o restante tinha de responder “Vendo a R$ 10″. Então todos começaram a gritar e gesticular com as mãos ao mesmo tempo. A turma se divertiu.

Ao fim da excursão, alguns dos estudantes, como Mayara Alves, 14 anos, revelaram a intenção de comprar ações. “Quando voltar para casa, vou pedir dinheiro para minha mãe para investir na bolsa”, disse a estudante. “Daqui a dez anos, pretendo devolver esse dinheiro”.

Guilherme dá a dica para quem deseja investir: primeiro, é preciso verificar se o preço da ação oscila muito. Depois, investigar se o negócio é lucrativo. Ele, por exemplo, não investiria em uma empresa cuja ação “sobe, sobe, sobe e, depois, cai do nada”.

Do jornal Valor Econômico
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