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Armadilhas da mente | Instituto de Educação Financeira

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Armadilhas da mente

No cenário atual de juro mais baixo, o investidor disposto a se arriscar um pouco mais em busca de retornos diferenciados, principalmente na bolsa, deve ficar atento para não cair em armadilhas pregadas pelo seu pior inimigo: ele mesmo, conforme já disse o influente investidor americano Benjamin Graham. Afinal, há evidências de que os indivíduos agem de forma irracional com certa frequência quando o assunto é dinheiro. E se os novos tempos levam esse aplicador a correr um pouco mais de risco, o cuidado merece ser dobrado.

Conforme evidenciaram trabalhos acadêmicos ainda das décadas de 70 e 80 de dois psicólogos experimentais, Amos Tversky (morto em 1996) e Daniel Kahneman – ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2002 -, as pessoas usam “regras de bolso” para simplificar a tomada de decisões em situações de incerteza, o que acaba gerando vieses de comportamento que levam a erros sistemáticos e previsíveis.

Para os adeptos das finanças comportamentais, contudo, se o investidor conseguir reconhecer algumas armadilhas da mente poderá adotar estratégias para lidar com elas e, assim, aumentar suas chances de sucesso. “Não há um antídoto para os vieses de comportamento, mas dá para criar um processo de investimento que busque blindar tais armadilhas”, afirma Philipe Biolchini, um dos sócios-fundadores da First Value Capital, gestora que adota conceitos de psicologia na hora de escolher ativos.

Jurandir Sell Macedo, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e consultor do Itaú Unibanco, lembra que a mente humana trabalha com dois sistemas, conforme modelo apresentado no livro “Rápido e Devagar, Duas Formas de Pensar”, mais recente obra de Kahneman. Para que a racionalidade prevaleça, o sistema 2 – que é devagar, porém mais lógico e deliberativo – precisa agir. Contudo, mostrou Kahneman, o indivíduo está sempre exposto a influências que podem minar sua capacidade de julgar e agir com clareza. É aí que entra em ação o sistema 1, rápido e intuitivo, porém mais suscetível a erros.

James Montier, que integra a safra jovem de gestores notórios que exploram os vieses de comportamento em suas análises nos Estados Unidos, elencou os sete pecados mais comuns verificados no processo de investimento em relatório de estratégia de ações quando ainda estava na Dresdner Kleinwort Wasserstein, em 2005. Hoje, com pouco mais de 40 anos, é membro do comitê de alocação de ativos da GMO – gestora adepta do investimento em valor com mais de US$ 100 bilhões em ativos -, e sua paixão pelas finanças comportamentais continua.

Trazer as projeções de ativos para o centro da estratégia de investimento aparece entre os primeiros erros identificados por Montier. Para ele, elas são pouco confiáveis e, em geral, carregadas de otimismo e autoconfiança. A crença nas projeções, segundo especialistas, pode ser explicada por um fenômeno conhecido como ‘ancoragem’, caracterizado pela necessidade do indivíduo de se agarrar a um número diante da incerteza. Para Macedo, do Itaú Unibanco, a projeção vale apenas como uma ferramenta para imaginar situações extremas e traçar um plano de ação.

Biolchini, da First Value, acredita que não há porque gastar tempo tentando prever o futuro, que é incerto por natureza. “O bom investidor faz análise, mas isso não tem nada a ver com projeção.” Esse é um pecado que pode custar caro, como tem acontecido com investidores de empresas pré-operacionais do setor de petróleo, diz. “Muitos estão frustrados porque colocaram o foco nas projeções.” A dica dele é buscar dados concretos, como o desempenho da empresa nos últimos anos, do setor em que atua e de concorrentes.

Outra armadilha que Montier chamou de ‘ilusão do conhecimento’ é a disposição do investidor em acreditar que, quanto mais informação, melhor será a performance do investimento. Essa crença, segundo ele, funcionaria se os mercados fossem eficientes, o que não é verdade. E a psicologia já mostrou que há limites cognitivos na capacidade de lidar com informações.

Quem tem gula não necessariamente sente o prazer do alimento, brinca Macedo. E qualidade, em investimento, não está associada à quantidade de informações, acrescenta Biolchini. O investidor, apontam os especialistas, deve se concentrar em dados que realmente são relevantes, como resultados das empresa, endividamento e preço.

Otimismo, credulidade e efeito manada machucam o bolso

Além do apego às projeções e ao acúmulo de informações, a crença exacerbada no que dizem os executivos das empresas também faz parte da lista de armadilhas sedutoras com grande potencial de induzir o investidor ao erro.

Na visão de um dos principais estrategistas da atualidade a usar as finanças comportamentais em suas teses de investimento, o gestor James Montier, muitos investidores profissionais acham que o acesso a pessoas que ocupam posições importantes nas companhias é uma vantagem competitiva, mas se esquecem de que esses executivos sofrem dos mesmos vieses de comportamento: excesso de otimismo e autoconfiança. Além disso, lembra Philipe Biolchini, sócio da First Value Capital, as pessoas tendem a ouvir apenas o que combina com a sua própria tese de investimento, um fenômeno chamado de viés de confirmação.

Outra armadilha em que o investidor acaba se enredando sem refletir a respeito é a sua disposição para acreditar. “A sedução por histórias bem contadas, que capturem corações e mentes, é muito forte. Isso ocorre principalmente nas aberturas de capital na bolsa”, diz o superintendente-executivo de gestão de patrimônio do HSBC, Gilberto Poso. Para ele, é legítimo, por parte da empresa interessada em achar um sócio, buscar contar uma boa história. Separar o joio do trigo é que é a grande questão e, para isso, diz Poso, o investidor deve buscar saber se a empresa tem um passado concreto, com vendas reais, ou se tudo é feito com base em expectativas.

Na bolha da internet, no início de 2000, lembra Poso, “vendiam-se expectativas aos montes e deu no que deu”. Para evitar erros como esse, o investidor precisa ter cuidado com modismos e, conforme destaca Biolchini, sair da comodidade e fazer sua própria análise.

Tomar decisões em grupo, inclusive, é outro erro apontado por Montier no seu estudo. Para ele, os grupos amplificam, em vez de minimizar, os problemas na tomada de decisão. Poso, do HSBC, destaca que as pessoas têm sempre a necessidade de seguir o outro. “Isso reflete o medo de ter uma opinião isolada porque, até que ela se prove correta, você vai ser questionado mil vezes e pode ser ridicularizado.” Mas, Biolchini, da First Value, lembra que muitos dos ganhos vêm justamente de apostas contrárias.

Humildade é outra característica fundamental para evitar tropeços. Quem acha que é mais inteligente que os outros, que vai bater o mercado, sofre do que Montier qualifica de ‘inveja’ e, mais uma vez, de excesso de otimismo e autoconfiança. Mas isso é bastante comum. Jurandir Sell Macedo, consultor do Itaú Unibanco, elenca vários exemplos de golpes no mercado, da pirâmide financeira montada pelo ex-presidente da Nasdaq, Bernard Madoff, nos Estados Unidos, aos investimentos em boi gordo e avestruz, no Brasil.

Por último, mas não menos importante, o investidor tem de superar o olhar de curto prazo para não ficar sujeito ao excesso de operações. Para Montier, isso não é investimento, mas pura especulação, além de onerar o bolso.

Brasileiro tem de evitar outros ‘maus hábitos’

Alguns especialistas acreditam que armadilhas que soam comuns aos investidores de mercados mais desenvolvidos devem ser vistas com cautela quando o assunto são os maus hábitos dos brasileiros. A avaliação é que, em matéria de investimentos, nossos pecados – assim como nossos mercados – estariam um passo atrás dos americanos e europeus. Eduardo Glitz, diretor de operações da XP Investimentos, avalia que alguns dos embustes que o investidor impõe a ele mesmo no momento de tomar uma decisão atingem mais as pessoas já acostumadas a operar, por exemplo, via ‘home broker’ – parcela ínfima no mercado local.

A maior parte da população, diz ele, ainda não sabe o que fazer com o próprio dinheiro, teme a indústria de investimentos e não se sente à vontade em lidar com isso. “Por conta disso tudo, essas pessoas acabam delegando suas decisões ao gerente do banco, que têm que bater metas e está longe de ter seus interesses alinhados ao cliente.”

Segundo Glitz, ao investidor local faltam características mais prosaicas, como disciplina para abdicar dos apelos fáceis do consumo e disposição para comparar produtos e rentabilidades, da mesma forma que ele se dispõe a comparar carros, casas ou marcas de sabão em pó. “A pessoa coloca dinheiro em qualquer produto e não dá atenção a custos e rentabilidades. O que parece ser uma bobagem, como uma economia de 0,1% ao mês, durante 20 anos equivale a 100% a mais.”

Gilberto Poso, superintendente-executivo de gestão de patrimônio do HSBC, também acha que em alguns pontos ainda estamos um tanto distantes das questões que preocupam investidores de mercados mais avançados. Como exemplo, ele diz que não vê como um problema a informação em excesso. “Uma minoria sofre desse mal. Na verdade, o investidor brasileiro é movido por um nível de informação superficial”, diz. “Todo mundo sabe discutir sobre Petrobras e Vale, mas quando a questão são empresas sobre as quais é preciso cavar mais para obter informações é difícil encontrar alguém que se disponha a isso”, complementa.

Para Poso, o que mais afeta o investidor local é a angústia de não saber lidar com objetivos e prazos, o que acaba tendo impacto sobre as operações mais arriscadas e levando as pessoas a tomar decisões equivocadas. “O fato é que a instabilidade traz um desconforto gigante.”

Para aquele que está começando no mundo dos investimentos, Philipe Biolchini, sócio da First Value, recomenda paciência e humildade. Ter um julgamento isento do que são erros e acertos só é possível com a vivência. Enquanto ela não vem, a dica é diversificar as aplicações e investir em empresas pouco endividadas e com lucro. “O investidor deve montar uma estratégia para não perder, depois ele pensa em como ganhar”, diz.

Jurandir Macedo, professor e consultor do Itaú Unibanco, destaca que é preciso investir sempre e com um horizonte maior de tempo. “Na bolsa, em especial, só há criação de valor no longo prazo, porque a companhia vai ter dinheiro e tempo para produzir.”

O cenário de juro mais baixo, porém, deve levar os investidores a agir de modo diferente – e com mais sofisticação tanto nos acertos quanto nos erros. Logo, prestar atenção ao problema desde já pode ser um atalho para o sucesso.

Do Portal Valor Econômico
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